Como é fazer pesquisa durante a graduação nos Estados Unidos

Gabriel Vercelli - pesquisa durante a graduação

Para um aluno que começa a faculdade nos Estados Unidos, a bancada de pesquisa não é um destino tão distante. Laboratórios, equipamentos à disposição e estímulo a atividades práticas fazem parte do pacote, em especial para quem estuda em escolas da Ivy League. Com Gabriel Toneatti Vercelli, aluno da Universidade de Princeton e bolsista do Programa de Líderes Estudar, não foi diferente: ao longo de toda a sua graduação em Princeton ele se envolveu, todos os anos, com projetos de pesquisa.

De início, Gabriel chegou a Princeton certo de que estudaria Biologia. O gosto por biotecnologia e o interesse em aplicar o conhecimento adquirido em melhorar a vida das pessoas eram fatores determinantes nessa escolha. Para entender mais sobre a major que queria, ele se matriculou em uma matéria de ciências integradas, para aprender como áreas da Biologia, da Física e da Química interagem e podem ser complementares.

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“Eu percebi que, para conseguir entender melhor a Biologia, em áreas que me interessam, como comportamento, era necessário ter conhecimentos de física e matemática pra formalizar meu pensamento”, conta ele. Esse tipo de matéria reflete uma preocupação de muitas instituições estrangeiras: não só de aproximar os alunos da pesquisa, mas de formar um tipo específico de pesquisador.

“Tenho acesso a matérias de neurociência, de Química e consigo aprofundar meu conhecimento em várias áreas, além de fazer cursos que estabeleçam a ligação entre elas”, explica o brasileiro, que está no segundo ano da graduação. “A ideia é formar cientistas holísticos”.

“Tudo que a gente vê em tecnologia foi pesquisa um dia”

Aprendendo mais sobre os campos de conhecimento, Gabriel mudou de ideia. Saiu da Biologia, depois de fazer um estágio em laboratório, e optou pela Física. Com a flexibilidade oferecida nas instituições de ensino dos Estados Unidos, entretanto, foi mais fácil combinar as duas paixões – ele pretende obter um minor em biologia quantitativa, uma área de estudos que usa as técnicas e instrumentos da Física para responder a questões da Biologia.

O plano de impactar a vida das pessoas com a ajuda da ciência, entretanto, não mudou. Gabriel pondera que, mesmo que os laboratórios pareçam distantes do que faz parte da rotina das pessoas, dão a base para o desenvolvimento de muitas ferramentas.  “Tudo que a gente vê em tecnologia foi pesquisa um dia”.

Como se engajar em pesquisa durante a graduação

O caminho de um estudante até obter uma vaga de estágio em laboratório, ou no projeto de algum professor é mais simples do que se pensa. Professores prestigiados estão ao alcance de um e-mail e há bastante investimento em ciência. Gabriel explica que, depois de ter aula com um professor de Biologia em Princeton, se interessou pelo trabalho dele. “Mandei e-mail e marquei um horário para falar com ele, que aceitou que eu estagiasse no laboratório”.

Essa facilidade em achar oportunidades de pesquisa durante a graduação tem a ver com a cultura nas universidades e com a estrutura disponível. “A universidade quer que os alunos se sintam confortáveis em conversar com os professores”, opina Gabriel. Com uma proporção de cerca de dez alunos para cada professor, Princeton permite um contato direto entre os pesquisadores experientes e os mais jovens.

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A proximidade não ajuda apenas a criar um ambiente mais acessível para pesquisa, mas também alavanca o engajamento dos alunos e a produtividade. “Para que as relações sejam produtivas, você tem que ter a liberdade de perguntar, de mostrar seus erros e conversar com alguém que saiba dar orientação e trabalhar em cima disso”, sintetiza o estudante.

“Mesmo que um professor não tenha o projeto em que você se interesse, ele vai saber indicar outro professor que tenha algo”, sintetiza Gabriel. 

Rotina de laboratório

Quem opta por se engajar em pesquisa durante a graduação pode começar com tarefas menores e aprender com outros pesquisadores envolvidos. No caso de Gabriel, que conduzia uma pesquisa com moscas, o dia a dia envolvia leituras de papers, execução de tarefas rotineiras do projeto e acompanhamento de um profissional mais experiente.

“Geralmente, a gente trabalha com alguém mais sênior, que faça PhD ou pós-doutorado na universidade, que vai indicar o que precisa ser feito”, conta o jovem brasileiro. Esse contato não se limita às orientações diárias, mas também inclui desde indicação de livros até conversas sobre a carreira acadêmica. 

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Sempre há o que fazer e, via de regra, o trabalho do estudante é flexível. Pode ser uma rotina de cuidados com as moscas analisadas, coleta de dados, analisar materiais em um microscópio. “Todo projeto grande de pesquisa precisa de muitas tarefas pequenas, que um aluno de graduação como eu pode fazer”, sintetiza Gabriel.

Gabriel também teve a oportunidade de estagiar na Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, entre junho e julho de 2018. “Foi muito interessante não só pelo conteúdo acadêmico, mas também porque eu pude entender um pouco mais sobre como a pesquisa é feita na Europa”, conta. Ele também teve a oportunidade de ver palestras de professores que estavam se candidatando para um cargo na universidade; como ele próprio um dia pretende ser professor-pesquisador e ter seu próprio laboratório, foi uma experiência muito enriquecedora.

Atualmente, Gabriel está concluindo a graduação em Princeton e se preparando para a pós. Já foi aceito em universidades como MIT, Yale, Georgia Tech e Universidade de Chicago, e está escolhendo entre elas. Os fatores que pesam nessa escolha vão além, simplesmente, da qualidade do curso de cada uma.

“Em cada uma delas eu já sei de pelo menos um professor com quem gostaria de trabalhar”, conta. Ele fez essa pesquisa previamente e conta que ela é importante para que o aluno não chegue à universidade e fique “perdido”. Fora isso, ele também avalia a cidade em que cada universidade está. “Pesquisa é algo que demanda muito de você, então você precisa ter algum tipo de suporte na cidade onde você está”, diz.

O que é necessário para se dar bem em pesquisa?

Enquanto que, para muitos estudantes, o trabalho em laboratório parece animador, outros não têm tanto interesse. Gabriel Toneatti Vercelli, que se prepara para estagiar na  aponta algumas características necessárias para que um estudante se saia bem ao desenvolver pesquisa durante a graduação.

#1 Gostar de aprender coisas novas

Apesar de as grandes descobertas chamarem a atenção, a rotina de pesquisa também envolve testes que não funcionam e hipóteses que se provam falsas. “A gente precisa saber admitir que está errado, já que fazer pesquisa é duvidar constantemente do que se sabe”, resume Gabriel.

Quando um resultado negativo aparece, também se trata de um aprendizado. “Mesmo quando as coisas dão errado, a gente descobre alguma coisa: que aquilo não funciona. E a partir disso descobre o porquê”, diz ele. “Vai errando, errando e errando e aprendendo com isso, até que tenha aprendizados suficientes para acertar”.

#2 Trabalhar bem em grupo

“Não dá para fazer pesquisa sozinho”, diz o estudante brasileiro. Checar como estão as moscas durante um experimento pode ser uma tarefa individual, mas é necessário compilar dados, discutir hipóteses e trabalhar junto a pesquisadores de todas as formações.

#3 Ser criativo

Em outras palavras, fazer pesquisa é lidar com o que nunca foi feito antes. Elaborar novas ideias e sugerir formas alternativas de executar alguma tarefa fazem parte da rotina.

#4 Lidar bem com autonomia

“A maior diferença entre pesquisa e outros tipos de trabalhos é a diferença de hierarquia. Uma empresa tem muito mais restrições”, aponta Gabriel. As tarefas do dia a dia não seguem um plano tão rígido e muitas vezes o estudante envolvido em pesquisa durante a graduação decide o que vai fazer, depois de receber uma orientação. “Pode ser coletar dados, ler um paper novo relevante, falar com seus colegas sobre o que observou”, lista o brasileiro.

#5 Ser humilde

“Você precisa ser humilde para pedir ajuda quando não souber algo, para abrir espaço para outras pessoas colaborarem, para saber que às vezes está indo na direção errada, saber explorar outras opções, olhar para um trabalho que você levou seis meses fazendo e reconhecer que ele não vai dar certo”, opina Gabriel.

No entanto, ele também acredita que quem não tem essa característica acaba desenvolvendo-a ao se envolver à pesquisa — talvez de maneira mais custosa. “Se você não for humilde, a ciência vai te fazer humilde”, conclui.

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