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ITA, MIT e UC Berkeley: comparando três universidades de excelência em engenharia

Por Gustavo Sumares
11.02.2019

Bolsistas da Fundação Estudar que estudaram em universidades de excelência em engenharia tanto no Brasil como nos EUA comparam suas vivências acadêmicas.


É comum que as pessoas considerem as universidades estrangeiras melhores que as do Brasil. No entanto, quais são, de fato, as diferenças entre elas? Na prática, o que diferencia uma instituição brasileira de ensino superior de algumas das universidades de excelência em engenharia do resto do mundo?

Para descobrir, conversamos com dois bolsistas do Programa de Líderes Estudar. São eles: Gustavo Cellet Marques, formado em engenharia civil pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que estudou na University of California (UC) Berkeley e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), seis meses em cada; e Pedro Verdini, ex-aluno do ITA que atualmente está na graduação do MIT.

O programa seleciona jovens brasileiros com alto potencial e compromisso com o país para receber uma bolsa para cursar uma univesidade de excelência, e está com as inscrições abertas.

Segundo os dois, a diferença entre as universidades daqui e as de fora são menos relacionadas a conteúdo, e mais relacionadas a outras questões. Fatores como a relação entre professores e alunos, a estruturação do curso e a forma como os estudantes são cobrados são o que fazem mais diferença. Confira:

O ambiente de cada uma

Ao chegar na UC Berkeley, Gustavo conta ter se deparado com um estilo acadêmico bem diferente. “As aulas lá são muito mais participativas. O aluno sabe o que vai ser o conteúdo das aulas, e é incentivado a se preparar para essa aula e participar dela ativamente. Isso inclusive compõe a nota dele”, conta. Nesse aspecto, ele encontrou um ambiente bem diferente das aulas do ITA, nas quais, em suas palavras, o “aluno é mais passivo”.

Wheeler Hall, um dos edifícios da University of California, Berkeley
Wheeler Hall, um dos edifícios da University of California, Berkeley

 

Na visão de Gustavo, essa caraterística mais participativa das aulas “cria uma rotina academicamente exigente” para quem estuda na UC Berkeley. Como ele sabe que vai ser cobrado de maneira constante, ele acaba estudando de maneira mais constante também. “No ITA, o pessoal acaba estudando mais na véspera da prova”, diz.

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Outra diferença que ele notou do MIT para a UC Berkeley foi com relação às pessoas. “Acho que as pessoas em Berkeley são mais relaxadas e amenas, e aí você tinha uma vida mais ativa fora da sala de aula. No MIT, o pessoal era mais reservado, e o ambiente era muito focado e acadêmico”, lembra.

Pedro Verdini, por sua vez, conta que sentiu algo nesse sentido na relação entre os professores e alunos na sua instituição de ensino. “Os professores se importam muito com os alunos”. Nas palavras dele, caso o aluno comece a faltar em aulas sem dar justificativas ou a ter um desempenho abaixo da média, é comum que os professores abordem esses alunos para saber se eles estão bem.

Organização dos cursos

Pedro conta também que o curso do MIT é bem mais ligado ao mercado de trabalho do que o ITA, onde ele também estudou antes de começar o intercâmbio. “O currículo [no ITA] não muda tanto, não se adapta tanto. No MIT, todo ano que você faz uma matéria, ela é uma matéria diferente”, relata.

Fora isso, existe também a questão da flexibilidade da grade curricular, muito maior nas universidades estrangeiras que no ITA, na visão tanto de Pedro como de Gustavo. “Os alunos do MIT podem escolher matérias de qualquer área, podem explorar à vontade”, diz Pedro. O primeiro ano de estudos por lá é livre, e só no final dele é que os alunos precisam escolher seu major, a área em que querem se especializar.

Mas segundo ele, ainda é possível mudar o seu major no segundo ou terceiro ano. “isso é muito bom, porque as pessoas podem explorar aquilo que elas gostam. E mesmo depois, você ainda pode fazer por exemplo uma matéria de música, mesmo estudando engenharia elétrica”, conta. E no MIT ainda é possível “pular” matérias: basta fazer uma prova para certificar que você já domina aquele conteúdo.

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Na UC Berkeley, segundo Gustavo, essa flexibilidade também existe. Mas, na prática, ela acaba não sendo tão real assim. Isso porque o número de vagas para cada curso é limitado, e alguns dos cursos são muito disputados. Dessa forma, o aluno pode não conseguir fazer todas as matérias que deseja. Esse foi um dos fatores que o levou a pedir transferência para o MIT no semestre seguinte do seu intercâmbio.

“Lá [no MIT] eu conseguia fazer qualquer matéria que eu quisesse, incluindo algumas do MBA, mesmo eu estando na graduação ainda”, diz. Na época em que estudou no MIT, Gustavo tinha 21 anos, e acabou tendo aulas com pessoas mais velhas e com bastante experiência de trabalho. “Foi bom porque eu pude interagir com gente que já tava mais avançada na carreira”, considera.

Cronogramas e notas

Comparando as universidades estrangeiras com as universidades brasileiras, outra diferença que ele nota é com relação a como elas tratam seus cronogramas. “O calendário é mais rígido e respeitado lá. O professor no primeiro dia de aula diz o que vai acontecer, as datas das provas e de entregas de trabalhos, porque a faculdade é muito grande e tem gente de muitos cursos diferentes fazendo cada matéria”, comenta.

Nesse sentido, o ITA, por ser uma faculdade comparativamente bem menor e mais direcionada, permitia mais flexibilidade. “Se a turma precisasse remarcar a prova por qualquer motivo, por exemplo, dava para remarcar”, ressalta Gustavo. E como muita gente morava junto no ITA, dividindo o alojamento, “todo mundo era muito integrado e se ajudava, não tinha muita competição”.

Na visão de Gustavo, os alunos dos EUA costumam ser mais competitivos. “Lá quando você vai atrás de um emprego eles olham pro seu GPA (média ponderada das notas), então lá eu sentia que era mais ‘cada um por si'”, conta.

Em termos de exigência, segundo Pedro, “é mais fácil você tirar uma nota máxima no MIT do que no ITA. Porque no MIT eles já esperam que uma parte da turma vá ter nota máxima. No ITA, se você pegar todo mundo que já se formou com média máxima, dá muito pouca gente”, diz.

Visão aérea do campus do MIT

Quanto a faltas, Pedro diz que no MIT essa questão varia muito. Há professores que exigem presença em todas as aulas, e há professores que não ligam tanto assim caso os alunos não compareçam às aulas. De maneira geral, porém, a percepção dele é que nunca se espera que um aluno falte à aula.

Outras diferenças

Outro ponto de diferença que Pedro aponta é que a diversidade entre os alunos do MIT era bem maior que no ITA. Afinal, da mesma maneira que há muitos brasileiros querendo estudar nos EUA, há estudantes de todo mundo com isso em mente também.

“No ITA, a diversidade cultural já é enorme, você tem gente do Nordeste, do Norte, do Sul (…). Mas no MIT é meio que isso, só que pro mundo inteiro”. Isso significava que ele tinha contato com pessoas de diversos países em suas aulas na instituição.

O fato de que o processo de ingresso à universidade lá é mais holístico (e não apenas uma prova, como no Brasil) também contribui para isso, segundo Pedro. “Como no MIT o processo de seleção não leva só em consideração uma nota, mas toda a sua história e o seu contexto, é uma coisa muito mais relativa do que absoluta, e assim é muito mais fácil você ter uma faculdade mais diversa”, considera.

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Isso se reflete em diversos aspectos. Na percepção de Pedro, a composição dos alunos do MIT está próxima de 50% homens e 50% mulheres. No ITA, ele considera que essa proporção está mais para 90% homens e 10% mulheres, “talvez até menos”. Com relação a perfis socioeconômicos, ele considera que ainda “é muito mais difícil entrar no MIT tendo uma condição socioeconômica pior”.

Por outro lado, isso não impede que pessoas com menos dinheiro entrem. O MIT oferece assistência financeira com base na necessidade dos candidatos, e o processo de admissão não leva em conta se o candidato tem condição de pagar a faculdade. Caso algum dos alunos selecionados não consiga custear seus estudos, a instituição pode oferecer bolsas, incluindo bolsas integrais.

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