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22.01.14

Em Harvard, para contribuir para a Saúde Pública no Brasil

Em Harvard, para contribuir para a Saúde Pública no Brasil

O médico Ricardo Terra conta por que decidiu fazer um mestrado nos EUA, mesmo já tendo assumido um bom cargo no setor público brasileiro

O paulistano Ricardo Terra se formou em Medicina pela Universidade de São Paulo (USP), em 1999, e completou o programa de residência em Cirurgia Geral e Cirurgia Torácica no Hospital das Clínicas em 2004. Foi contratado como cirurgião em 2006 e, além de atender os pacientes, passou a treinar residentes e desenvolver projetos de pesquisa clínica. Em 2008, conseguiu uma bolsa para fazer um doutorado, também na USP. “Antes de terminar o curso, em 2010, fui designado coordenador do Serviço de Cirurgia Torácica do Instituto de Câncer do Estado de São Paulo, embora não tivesse a formação acadêmica completa adequada”, conta.

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Apesar da rápida ascensão em sua carreira, Ricardo sentia que não estava suficientemente qualificado para atuar como pesquisador e gestor no setor público – mesmo com toda a sua experiência prática e o conhecimento que adquiriu no doutorado. “Comecei um curso on-line em pesquisa clínica, ofertado pela Harvard Medical School, e esse foi meu primeiro contato com a universidade. Em certo momento, alguns professores vieram ao Brasil para uma visita, e pude conhecer um pouco mais sobre os cursos. Diante das minhas aspirações, foram eles que sugeriram que eu fizesse o mestrado em Saúde Pública na Harvard School of Public Health”, diz ele.

Ricardo já tinha vontade de estudar fora após algumas experiências em congressos nacionais e internacionais. “Quando apresentava minhas pesquisas no exterior, as intervenções que a plateia fazia sobre a apresentação eram interessadas e construtivas. Mesmo médicos vindos de cidades minúsculas do interior dos Estados Unidos faziam perguntas brilhantes e nos davam uma grande contribuição. Já no Brasil, a interação nesse sentido era pequena, e percebia muita desigualdade no envolvimento de profissionais de cidades menores em relação aos de grandes centros. Essa lacuna acaba refletindo no atendimento médico local e também na qualidade de vida das pessoas”, afirma.

Esse cenário lhe motivou a buscar um crescimento pessoal e profissional lá fora, com o intuito de voltar ao Brasil e replicar o conhecimento adquirido. “Minha vontade de ajudar foi aumentando e passei a pensar não só em como beneficiar o pequeno grupo de pacientes que já atendia, mas também a população brasileira como um todo, ampliando o impacto do meu trabalho.”

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Admissão
Segundo Ricardo, o que mais contou para sua entrada no mestrado em Harvard foram seu currículo e carta de apresentação. “O processo de application é trabalhoso, pois tem muitas pequenas etapas, mas é mais simples do que parece. Acho que consegui passar por ter uma boa justificativa de por que queria fazer aquele curso específico e uma trajetória coerente.”

Depois que foi aceito em Harvard, ele recebeu uma carta da universidade falando da possibilidade de parte da sua anuidade ser patrocinada com uma bolsa da Fundação Lemann, através do programa Lemann Fellowship. “Apliquei para a bolsa sabendo que eu não era um candidato típico. Como já tinha um emprego no Brasil para o qual não havia um substituto, só poderia estudar nos EUA por cerca de três meses por ano, durante o verão. As disciplinas seriam condensadas, e o currículo, muito pesado. No fim, fui admitido. Fiquei matriculado na escola por quase três anos.”

Durante o mestrado, Ricardo aprendeu mais a fundo sobre epidemiologia, métodos de pesquisa, análise crítica e quantitativa, gerenciamento de recursos humanos e sistemas de saúde, custo e efetividade, mas também políticas públicas, justiça social e ética aplicável para a medicina – disciplinas que nunca tinha estudado no Brasil. “Há algumas matérias básicas, mas o aluno tem a liberdade de construir parte de seu currículo, dando ênfase a seu objeto de pesquisa, como saúde materno-infantil, por exemplo.”

Ele acrescenta que o curso é multidisciplinar, podendo abranger até liderança e gerenciamento de crise. “Essa característica também tem a ver com o trabalho do médico no setor público, que é muito amplo. Em metade do tempo atendo os pacientes, enquanto na outra metade preciso gerenciar o sistema. Queria melhorar minha atuação nesse sentido e entender melhor como funcionam as políticas públicas de saúde”, aponta.

No trabalho de conclusão do curso – o chamado practical work -, o aluno tem que demonstrar a capacidade analítica adquirida. “No meu caso, desenvolvi uma pesquisa bastante específica que tinha como objetivo criar uma equação para identificar os pacientes com câncer que melhor se saem no tratamento de derrame pleural. Já um colega desenvolveu um estudo sobre a incidência de HIV entre crianças marginalizadas que vivem em abrigos em seu país”, conta.

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Aprendizado
Os colegas de classe de Ricardo vinham de várias partes do mundo e tinham formações variadas: havia muitos médicos, mas também enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais relacionados à saúde. “Por eu ter optado pelo curso de verão, os alunos tinham uma faixa etária mais alta, e a maioria já estava posicionada em seus respectivos países. É uma espécie de mid-career adaptado para a medicina”, explica. Depois do curso, eles costumam voltar e implantar projetos para a melhoria da saúde em sua própria comunidade. “Para isso, eles podem trabalhar no setor público, mas também ser o diretor de um hospital privado ou um médico atuante que também faz pesquisas e tem cargos administrativos.”

Para Ricardo, o networking foi um ponto forte do seu estudo fora. “Somos expostos a múltiplas culturas, pessoas interessantes e que pensam diferente sobre as mesmas questões. Durante o curso, por exemplo, um francês e um chinês passaram horas discutindo sobre ser ético ou não aproveitar os órgãos de prisioneiros condenados à morte. Ambos eram extremamente inteligentes, tinham argumentos fortíssimos, mas pensavam exatamente o oposto um do outro”, diz. “Em nosso país, é comum termos um pensamento mais homogêneo. Quando alguém demonstra pensar de forma diferente, tendemos a ridicularizá-lo e não ouvir o que ele tem a dizer. Na verdade, todo problema tem muitas faces, e não existe uma interpretação absoluta.”

Outra grande contribuição de estudar fora para Ricardo foi a mudança na forma de pensar a própria medicina, por ter encontrado informações novas e amplas. “Nós, médicos, temos uma formação muito técnica, biológica. Mas, na prática, tratamos de sistemas de saúde como um todo, o que exige uma formação que vai muito além disso.” Do ponto de vista científico, Ricardo ganhou um amplo background para pesquisa. Por outro lado, também aprendeu a utilizar de forma operacional as ferramentas que já existem para o desenvolvimento da qualidade do sistema de saúde. “Esse aprendizado se torna ainda mais importante quando consideramos que a maior parte das pessoas que fazem a gestão da saúde no Brasil não tem formação para isso”, pontua Ricardo.

Atualmente, Ricardo é professor-colaborador da disciplina de Cirurgia Torácica da Faculdade de Medicina da USP e coordena um centro de pesquisas da escola. Ele ampliou sua contribuição para a medicina no Brasil ao criar um banco de dados para controlar a qualidade do tratamento cirúrgico de pacientes com câncer de pulmão. “Sem o mestrado em Harvard, dificilmente teria capacitação e conhecimento suficientes para desenvolver esse projeto.”

Neste vídeo, Ricardo Terra fala um pouco mais sobre sua trajetória:

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