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22.05.15

“Às vezes, nos sentimos pessoas burras quando vemos quem nos cerca”

"Às vezes, nos sentimos pessoas burras quando vemos quem nos cerca"

Bárbara Cruvinel, aluna de Yale, fala sobre um assunto delicado: a pressão pela excelência. Discussões sobre saúde mental ganham importância nas universidades

Quem entra aqui em geral já tem uma história impressionante para contar antes de ser admitido, e nenhum de nós quer se sentir menos merecedor de estar em um lugar cheio de estrelas

Enquanto eu escrevo esta coluna, se completam dois anos desde que eu fui admitida em Yale, onde hoje estudo física. O momento em que eu recebi tal notícia foi com certeza um dos mais felizes da minha vida. Entretanto, naquela hora, eu não entendia completamente o que significava estudar em uma universidade de renome internacional. Yale está entre as cinco melhores universidades dos EUA e entre as 10 melhores do mundo. Yale formou nada menos que cinco presidentes americanos e conta com algumas dezenas de prêmios Nobel, alguns Oscars, Emmys, medalhas olímpicas e por aí vai. Dessa forma, ao entrar em uma universidade de elite mundial, seu padrão de comparação se eleva do mediano ao muito acima da média.

Yale é um ambiente extremamente colaborativo. Trabalhos em equipe, grupos de estudo, ajudar seus colegas até tarde na madrugada fazendo problem sets são coisas muito comuns, mesmo que nossas notas sejam dadas em uma curva. Porém, com o padrão de comparação elevado, a pressão sobre si próprio também aumenta. Quem entra aqui em geral já tem uma história impressionante para contar antes de ser admitido, e nenhum de nós quer se sentir menos merecedor de estar em um lugar cheio de estrelas.

Todos nós queremos fazer a diferença no mundo, entrar nos melhores programas de PhD, ter os melhores empregos, dirigir grandes empresas, virar grandes políticos, economistas, cientistas, engenheiros, entre outros. Ao contrário do que eu via no semestre em que estudei na USP, após o ensino médio enquanto esperava por Yale, o importante aqui não é só passar nas aulas, é entender cada detalhe do que você aprende. Ninguém quer menos do que um A (a nota máxima). O trabalho é constante durante os sete dias da semana. Fins de semanas são os dias em que as bibliotecas ficam mais lotadas.

Há menos de três meses, uma menina que estudava matemática no mesmo ano que eu em Yale tirou a própria vida

Lidar com as aulas também não é suficiente, é preciso fazer muito além para atender às suas próprias expectativas, já que a excelência vira seu parâmetro de comparação. Aqui dentro, é quase impossível ter a perspectiva de que sua exaustão vem de uma pressão que é maior do que em um ambiente normal. Você não sai da universidade nem para dormir já que você mora nela. Assim, apesar de ser incrível morar no campus, em momentos críticos do semestre, você está rodeado por outras pessoas com o mesmo nível de estresse até mesmo em casa. Eu tenho sorte do sistema de residential colleges de Yale tentar mitigar o estresse, mas pouca gente presta atenção nisso ao escolher sua faculdade.

Não é surpresa, dessa maneira, que a discussão sobre saúde mental tenha tido enorme repercussão no último ano entre as instituições da Ivy League e de nível semelhante. Há menos de três meses, uma menina que estudava matemática no mesmo ano que eu em Yale tirou a própria vida. O mesmo se repetiu algumas vezes em outras instituições de mesmo nível nos EUA nos últimos meses. Casos como esse são bastante raros, especialmente em Yale, que é considerada a Ivy mais feliz e onde o suporte para alunos é bastante forte por meio de Masters, Deans, mentores, freshman counselors, peer liaisons, conselheiros, psicólogos, college big sibs etc. Por isso, tal caso chocou a universidade e reabriu discussões importantes sobre como melhorar o apoio a alunos e como criar um ambiente mais seguro para o desenvolvimento intelectual e mental dos estudantes. Felizmente, a discussão tem dado bons frutos.

Estudar em Yale é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida (…) Eu me divirto horrores, mas trabalho até a minha exaustão mental e, às vezes, física

Não me leve a mal, estudar em Yale é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Se algum dia me dessem a opção de voltar no tempo e escolher qualquer universidade no mundo, eu escolheria Yale e viveria tudo de novo. Ter os melhores ao meu redor é ao mesmo tempo meu veneno (em sentido conotativo obviamente) e minha salvação. A cada minuto, sou inspirada por colegas que já estão quase fechando a carga horaria de um PhD em física, são gênios da música, são atletas olímpicos, trabalham na Casa Branca, têm sua próprias empresas etc. Morar em um residential college, ser ensinada por alguns dos maiores cientistas da atualidade, ter a oportunidade de trabalhar no CERN e viver em um lugar com vida cultural intensa não tem preço. Eu nunca fui tão feliz quanto eu sou em Yale. A comunidade daqui é incrivelmente amigável e mais diversa do que qualquer outra da qual eu já tenha feito parte. Morar em uma cidade universitária faz com que a nossa comunidade seja unida e que haja eventos diferentes acontecendo a todo momento. Eu me divirto horrores em Yale, mas trabalho até a minha exaustão mental e, às vezes, física. Yale não nos ensina só ciência ou literatura, mas também a lidar com a pressão para se manter no nível dos melhores do mundo. Se eu tivesse que trocar o lema de Yale um dia, talvez eu mudasse de “Lux et Veritas” para “Work Hard, Play Hard”.

Quando se fala em estudar em uma das melhores universidades do mundo, muito se fala dos prós e pouco dos contras. No entanto, assim que você pisa em uma instituição acadêmica de elite, você tem que aprender a lidar com vitórias e derrotas e a tentar manter sua sanidade ao trabalhar dentro de um padrão de excelência. Em Yale, ouço muito dos meus colegas (e de mim mesma por vezes) que nós nos sentimos as pessoas mais burras do mundo quando vemos quem nos cerca. Entretanto, dizem por aí que você vira uma espécie de média das pessoas com quem você convive. Então, independente de qualquer pressão, eu acho que eu estou no lugar certo.

Bárbara Cruvinel

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