Antes de estabelecer sua trajetória nos Estados Unidos, na Universidade da Pensilvânia, o Líder Estudar Leonardo Felipe Nerone começou em Guarapuava, cidade de cerca de 200 mil habitantes no interior do Paraná, onde cresceu. Filho de um funcionário público e de uma dona de casa, frequentou uma escola particular local, mas, como ele mesmo conta, o ambiente oferecia pouco estímulo para quem queria ir além do básico, como ele.
Foi nas olimpíadas científicas que Leonardo encontrou sua porta de entrada para um mundo que tinha mais a ver com seus interesses. Ao se inscrever nas competições, descobriu a programação. “Comecei a aprender a programar sozinho por conta das Olimpíadas”, conta. Já nessa época, começou a pensar sobre a possibilidade de estudar em outro país, mas ainda estava incerto sobre a vida fora do interior.
Ainda nesse período, na internet, conheceu amigos com interesses parecidos. Juntos, tentaram montar uma ONG e, depois, uma startup. Nada foi adiante, mas chegaram a ganhar uma maratona de aplicativos da Google, e até tentaram vender um outro produto para escolas: “A gente chegava nas escolas e ninguém levava muito a sério, éramos jovens de 15 anos tentando vender para eles”. Mesmo assim, seu caminho já estava, em certa medida, definido pelos seus interesses, e agora ele buscava um modo de fazer as coisas acontecerem.
A vida antes dos EUA
Ao terminar o ensino médio, Leonardo estava em dúvida: se candidatar direto para a faculdade ou tentar algo diferente antes. Ele e os amigos decidiram se mudar para São Paulo para viver a experiência de uma cidade grande, com mais oportunidades. Aos 17 anos, Leonardo tomou essa decisão sem grandes garantias, mas com a certeza de que seria uma experiência importante para sua formação.
Logo conseguiu uma posição como desenvolvedor de software na Pagar.me, fintech fundada pelos Líderes Estudar Pedro Franceschi e Henrique Dubugras, que mais tarde criariam a Brex. O período em São Paulo durou um ano e meio e foi decisivo: “Foi minha primeira vez morando em outra cidade, longe da minha família. Foi muito bom estar perto de pessoas com interesses parecidos com os meus, com tantas oportunidades, foi maravilhoso”, lembra.
Foi também uma época em que conheceu muitas pessoas que tinham estudado fora e decidiu que também queria passar por essa experiência. Foi aprovado no Prep Program, preparatório da Fundação Estudar para quem sonha em fazer graduação no exterior.
Preparar-se para as universidades americanas enquanto trabalhava e dividia apartamento com amigos não foi fácil. “Tinha que estudar à noite com a luz apagada, ficava só com a luz da tela do computador, porque dividia quarto. Era um apartamento com pessoas da minha idade, então era barulhento, era muito difícil se concentrar”, diz. Ainda assim, foi aprovado na University of Pennsylvania, uma das universidades da Ivy League, com uma bolsa de cerca de 90%.
Experiência na UPenn
Leonardo chegou à UPenn em agosto de 2018 para cursar Ciência da Computação. A experiência, como ele classifica, foi “boa e ruim”. Pelo lado positivo, o ambiente acadêmico era muito rico. Do lado difícil, havia uma sensação de deslocamento.
“Da minha turma de colegas brasileiros na universidade, não tinha ninguém com um background parecido com o meu, todos vinham de escolas grandes de São Paulo, com bastante dinheiro”. O inglês também foi um obstáculo: ele nunca havia conversado com falantes nativos antes de embarcar, então houve uma dificuldade inicial para entrar em um mundo em que tudo era em inglês. Só nos anos finais, ao se aproximar de brasileiros com trajetórias mais parecidas com a sua e ao se sentir mais confiante no idioma, a sensação foi ficando mais leve.
Na faculdade, Leonardo sempre priorizou sua experiência profissional. No primeiro ano, já conseguiu um estágio no Facebook pelo programa Facebook University, em Seattle, iniciativa voltada a estudantes de grupos sub-representados em tecnologia. Recebeu uma proposta para retornar, mas a pandemia interveio.
Gap year, startup e inteligência artificial
Em vez de fazer aulas online, Leonardo decidiu tirar um gap year. Estagiou na Hashdex, fintech de criptoativos, e depois se juntou como primeiro engenheiro à empresa de outro Líder Estudar, Felipe Menezes, onde ficou cerca de um ano.
Ao retornar à UPenn, já estava pensando em empreender. Conheceu Raul Dagir, também Líder Estudar, que o conectou a Max Telles. Os três começaram uma startup em 2023, com a ideia inicial de modernizar o sistema de pagamentos nos Estados Unidos, país onde o cheque ainda é amplamente utilizado. A proposta não foi para frente.
A virada veio com a onda de inteligência artificial. Hoje, como cofundador de uma nova startup, a Drachma, implementa agentes de IA customizados para negócios, entrando nas empresas, mapeando seus processos e construindo soluções específicas.
“Como não temos investimento de capital de risco, não há uma grande pressão para, em um ano, já estarmos com 10 mil clientes, por exemplo. Estamos indo mais lentamente para entender como funcionam os processos das empresas.” A startup levantou cerca de 1 milhão de dólares em pré-seed há três anos.
Apoio da comunidade de Líderes Estudar
A trajetória de Leonardo foi permeada por iniciativas e conexões com outros Líderes Estudar, algo que ele considera fundamental. A Fundação Estudar teve papel decisivo não só pelo apoio financeiro, sem o qual talvez não pudesse ter empreendido logo após a graduação, como ele conta, mas também pelo que representa fazer parte de uma comunidade que apoia diversas empreitadas.
“As histórias do pessoal da Fundação Estudar meio que fizeram com que fosse possível ver que estudar fora era possível. Não é algo de que ninguém lá na minha cidade falava.”
Mais do que uma bolsa ou uma rede de contatos, o programa funcionou, nas suas palavras, “Como uma forma de te ajudar a sonhar mais alto e correr atrás do que você quer fazer”.