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11.12.14

Sala de aula na Cordilheira dos Himalaias

Sala de aula na Cordilheira dos Himalaias

Lucas Sato, de 16 anos, estudante do Mahindra United World College – colégio internacional que reúne estudantes de vários países - conta suas aventuras na Índia!

Havíamos subido ao topo de uma montanha dos Himalaias, dormido sob as estrelas, descoberto o valor de chá quente, compartilhado histórias de todos os cantos do mundo ao redor de fogueiras, bebido água pura direto das rochas, lavado o rosto no Rio Ganges e recebido a bênção de um sacerdote da montanha

“All right folks, let’s wake up!” alguém gritava lá fora. Relutante e semi-sonâmbulo, abri os olhos. Olhei para o lado e vi Adrián, da Espanha, e Priyamvada, Índia, ainda dormindo em nossos três metros quadrados e meio. Abri meu saco de dormir e saí da cabana somente para  dar de cara com um frio congelante, que eu nem cheguei a imaginar quando preparava minha mala de viagem à Índia, três meses atrás. Enfim, também nunca teria imaginado participar de uma hike pela cordilheira dos Himalaias no norte indiano, mas lá estava eu. Sem ousar tirar as luvas emprestadas com as quais havia ido dormir, limpei a geada de minha mochila e me preparei para o terceiro dia de nossa jornada – o último de subida.

Naquela manhã, estávamos acampados às margens do lago Dodital – o lugar de nascença de Ganesha, uma das principais divindades do hinduísmo. O ambiente era simplesmente exuberante, e um minúsculo templo completava o cenário digno de uma pintura. O sacerdote nos disse que a passagem da montanha que pretendíamos cruzar estava em más condições devido à neve, e que provavelmente era perigosa demais. Ainda assim, com o futuro incerto e a bênção do sacerdote, desmontamos o acampamento e seguimos em frente para o mais rígido dia de caminhada, no qual faríamos um longo percurso de subida bastante íngreme em direção ao topo, a mais de quatro mil metros de altitude.

Chegávamos perto do ponto alto – tanto literal quanto figurado – da Project Week: uma semana dedicada a experiential learning, na qual todos os alunos do colégio devem participar em algum dos vários projetos coordenados por professores – desde uma semana de trabalho em uma ONG voltada a crianças órfãs a uma semana em uma estação de pesquisa de biodiversidade no meio de uma floresta de chuva. Ou, no meu caso, uma semana nas montanhas da cordilheira dos Himalaias.

Além de ser uma linda oportunidade para aprofundar amizades e viajar pelo fascinante país (minha semana contou com um total de mais de 60 horas em jipes, ônibus e trens que, graças às pessoas incríveis em meu grupo, passaram como 60 minutos), a Project Week é também uma chance de vivenciar a educação de um jeito diferente, riquíssimo e extremamente animador, desafiando-se a si mesmo, explorando novos interesses e apaixonando-se cada vez mais pelo mundo ao seu redor. Meu grupo contava com pessoas dos mais variados perfis – de hikers experientes a completos novatos – vindos das Américas Sul, Central e Norte, da Europa, da Ásia e da África, e cada um de nós voltou ao colégio com uma pesada mochila nas costas cheia de, não só sacos de dormir e casacos de inverno, mas também memórias e lições inesquecíveis.

cordilheira dos himalaias editadoQuando chegamos ao topo, quase sentindo nossas pernas sofrerem um colapso súbito e as várias camadas de roupa encharcadas de suor, o sentimento de superação pessoal era incrível, e junto havia a indescritível vista dos topos congelados à volta (perdi a conta de quantas vezes ouvi “This is the most beautiful place on Earth” no decorrer da semana).

No entanto, a passagem para o outro lado estava, de fato, muito ruim, e tivemos que dar meia-volta e voltar pelo mesmo caminho pelo qual subimos. Ainda assim, apesar do caminho ser o mesmo, a descida foi completamente diferente da subida: nós havíamos mudado. A volta, sem sombra de dúvida, foi, sim, uma inexperiência inédita. Isso porque havíamos subido ao topo de uma montanha dos Himalaias, dormido sob as estrelas, descoberto o valor de chá quente, compartilhado histórias de todos os cantos do mundo ao redor de fogueiras, bebido a água pura direto das rochas, lavado o rosto no Rio Ganges e recebido a bênção de um sacerdote da montanha. Tudo estava diferente, porque vinte jovens dos mais variados países batalharam uma guerra de bolas de neve a mais de quatro quilômetros de altitude, e então uniram vozes em um ritual hindu.

E nenhuma experiência em sala de aula jamais vai ser possível de transmitir as mesmas lições que não só aprendemos, mas vivenciamos durante uma das semanas mais inesquecíveis de nossas vidas.

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lucas satoO paulistano Lucas Sato teve uma educação primária baseada em muita história em quadrinhos. Assim, aos seis anos tomou gosto pelas letras e começou a escrever por hobby. Costuma brincar que é “astrônomo de quintal” e “filósofo de telhado”, com uma lista de interesses que vai de política a jardinagem. Dando aulas de inglês a crianças carentes, descobriu na Educação uma paixão. Hoje, cursa o ensino médio na Índia, no Mahindra United World College (UWC) – um concorridíssmo colégio internacional que reúne estudantes de vários países e tem como missão promover a paz entre os povos.

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