Como o COVID-19 afeta os estudantes com bolsas atléticas

Erika Cheng, tênis

A pandemia de COVID-19 afetou consideravelmente as universidades internacionais e seus alunos. Alguns precisaram voltar para casa, enquanto outros continuaram no campus, mas com restrições. Para os estudantes brasileiros de universidades estrangeiras que tinham bolsa por praticar esportes, no entanto, a situação foi duplamente difícil.

“É difícil tanto para manter o corpo em forma quanto mentalmente. Porque quando eu jogava, eu só pensava no jogo e não ligava tanto para as provas. O tênis era um escape”, conta Erika Cheng, que aparece na imagem acima. A brasileira de 17 anos é estudante de engenharia da Virginia Tech (Instituto Politécnico Estadual de Virginia, nos EUA) com bolsa por jogar tênis. Mas por enquanto, ela não está na universidade e também não está conseguindo treinar.

Erika começou a jogar tênis aos sete anos de idade, por influência de seu tio. Desde então, nunca parou — começou a jogar competitivamente aos 10 anos de idade e aproveitou seu talento no esporte para se candidatar a uma bolsa de estudos. Deu certo, e em janeiro de 2020 ela chegou à Virginia Tech. Entretanto, preciso voltar ao Brasil apenas alguns meses depois por causa do coronavírus. “Meus pais ficaram felizes, pelo menos”, brinca.

Como conseguir uma bolsa de atleta

O processo de candidatura para uma bolsa de estudos para atletas é um pouco diferente do application tradicional. Ele ainda envolve muitos dos elementos mais comuns, como carta de motivação, histórico escolar e proficiência em inglês. No entanto, naturalmente tem algumas exigências específicas que o tornam um tanto mais trabalhoso.

“Você tem que entrar em contato com os treinadores antes. Você manda um e-mail com seu ranking, vídeos de você jogando e resultados das suas competições, e se o treinador gostar de você ele faz uma proposta”, comenta Erika. Pelo que ela lembra, o processo todo de candidatura à universidade e à bolsa levou cerca de um ano.

Além disso, ela comenta que os resultados da candidatura são sujeitos a inúmeros fatores fora do controle do atleta. “Varia, porque depende do que a universidade precisa a cada ano”, explica Erika. Então se um jogador de futebol excelente se candidatar a uma universidade que já tem um time bem estruturado, pode acabar ficando sem bolsa mesmo que seja um atleta excepcional; ao mesmo tempo, um jogador meramente competente pode ter uma chance se a universidade precisar de alguém para a sua equipe.

No caso de tênis, essa questão das equipes também influencia. As universidades montam equipes para competir nos torneios — cada jogador compete individualmente, mas também representando sua equipe. É uma situação semelhante a corridas de Fórmula 1, em que há pilotos competindo individualmente, mas eles também têm equipes.

Conseguir a bolsa, porém, é só o começo: a renovação do apoio financeiro fica condicionada tanto ao desempenho acadêmico do bolsista quanto aos seus resultados no campo. “Tá nas mãos do coach [treinador]”, considera Erika; “se você tem uma lesão e não pode jogar, ele não vai tirar sua bolsa. Mas se você não está tendo a performance que eles esperam, pode acontecer”, complementa.

Ao mesmo tempo, há exigências acadêmicas: os bolsistas devem manter um bom desempenho tanto nas quadras quanto na sala de aula para garantir o apoio. No caso de Erika, ela diz que precisa manter um GPA (Graded Point Average) acima de 3, o que equivale, mais ou menos, a ter média ponderada de 7,5 de 10.

Voltando para casa

Obviamente, a pandemia do COVID-19 foi percebida pelos treinadores como uma situação excepcional. A Virginia Tech não fechou seu campus, mas orientou todos os estudantes que pudessem voltar a suas casa a fazerem isso. Em comparação com outras universidades, ela foi relativamente ágil em tomar medidas de isolamento social.

“A gente tinha ido para Notre Dame jogar e viu o Trump falando na TV sobre coronavírus e pensou ‘qual é a chance disso chegar até aqui’. Duas semanas depois, a universidade anunciou que ia mudar as aulas para o formato online”, lembra Erika. A instituição devolveu os valores de acomodação e alimentação dos estudantes que já tinham pago por eles pelo período, e também apoiou bolsistas que precisaram comprar passagens para voltar para casa.

Assim, menos de quatro meses depois de começar os estudos, Erika já estava de volta ao Brasil. “Bem quando eu estava me acostumando e curtindo”, lamenta. O retorno, no entanto, fez sentido para ela: não seria possível treinar na universidade, e as maiores competições dos EUA haviam sido canceladas.

De fato, a National Collegiate Athletic Association (NCAA), a associação que organiza boa parte dos programas de esporte universitário nos EUA, cancelou os próximos campeonatos e proibiu o recrutamento “ao vivo” de novos atletas, com a intenção de frear o avanço do COVID-19.

E segundo Erika, quase todas as suas colegas de equipe tinham saído do campus, e ela não queria ficar sozinha. Mesmo assim, ela conta que três atletas acabaram ficando lá porque não conseguiram voltar aos seus países antes de que as fronteiras fechassem.

Esporte sem quadra

Erika voltou a morar com os pais em São Paulo, por enquanto, e está sem treinar tênis por causa das medidas de isolamento social. “Quase nenhuma menina do time tá conseguindo treinar agora, acho que são poucas que têm esse privilégio”, considera. Esse período sem treinos certamente vai impactar no seu desempenho. “Quando você fica um ou dois dias sem treinar, você já sente”, diz ela.

Pelo menos elas não precisam ficar totalmente paradas. “A gente tá fazendo exercício físico para não perder muito o porte, e toda semana a gente tem uma reunião de equipe com o pessoal de treinamento físico da universidade”, conta. Os exercícios, no entanto, são limitados ao que dá para fazer em casa. “Polichinelo, pular corda, e exercícios que usam o peso do corpo, como abdominal, flexão, etc”, explica.

Não é o ideal, mas é o que dá para fazer por enquanto para minimizar o impacto desse tempo longe das quadras. Mas mesmo assim, a crise do COVID-19 ainda pode ter pelo menos um impacto positivo para Erika: a oportunidade de jogar com bolsa pela universidade por mais tempo.

Teoricamente, cada estudante pode jogar por quatro anos durante os estudos universitários. Mas como os atletas afetados pela crise mundial vão acabar “perdendo” um desses anos, é possível que eles possam repor esse ano. A NCAA já se mostrou favorável a essa proposta, mas cada universidade deverá decidir o que fazer com seus atletas. Erika espera que a Virginia Tech lhe conceda essa oportunidade. “Seria ótimo porque aí eu poderia fazer meu mestrado lá”, diz.

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