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Cloroquina funciona? Veja o que dizem as principais pesquisas sobre o tema

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Cloroquina funciona? Veja o que dizem as principais pesquisas sobre o tema

Em meio à pandemia do COVID-19, um remédio despontou como possível cura para a doença: a cloroquina, ou sua variante, a hidroxicloroquina. Usado principalmente no tratamento de malária, o medicamento é considerado por muitos como capaz de combater a doença causada pelo vírus SARS-CoV-2. Mas há indícios científicos de que a cloroquina funciona?

A pergunta gera discórdia: há indícios de que a recomendação de cautela quanto ao seu uso no tratamento de pacientes de COVID-19 foi um dos fatores que provocou a recente queda do ministro da Saúde, Henrique Mandetta. Apesar disso, há surpreendentemente poucos dados sobre a eficácia da medicação nesse caso.

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A seguir, vamos explicar o que é o medicamento, como ele funciona e o que se sabe sobre o uso dele para tratar a doença COVID-19, com base em pesquisas realizadas pelos centros de investigação científica mais empenhados nessa questão. Confira:

O que é a cloroquina?

A cloroquina é um remédio ministrado oralmente já utilizado para tratar e prevenir doenças como malária, artrite reumatóide e lúpus. Foi criada em 1934 e está na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde. Isso graças à sua eficácia no combate à malária, que é uma doença que ainda provoca muitas mortes em países tropicais.

Quando ela é usada para tratar pacientes de malária, ela combate o parasita que causa a doença (o Plasmodium vivax, entre outras espécies) na sua fase assexuada de reprodução. Isso acontece por causa da ação do medicamento sobre a hemoglobina, as células responsáveis pela cor vermelha do nosso sangue, de onde o parasita retira seu alimento.

Outro efeito da cloroquina no nosso organismo é causar uma leve supressão do sistema imunológico. Por isso, ela é usada em alguns casos para o tratamento de doenças auto-imunes, como lúpus ou artrite reumatóide, junto com outras medicações. Mas nesse caso, não se sabe ao certo como ela age.

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O próprio Food And Drug Administration dos EUA (o órgão dos Estados Unidos equivalente à nossa Anvisa) não cita essa utilidade do medicamento no rótulo padrão aprovado para ele. O órgão, aliás, recentemente emitiu um aviso para que as pessoas não usem a medicação fora de hospitais ou testes clínicos. Também não há dados que comprovem que o remédio seja seguro para pessoas com idade acima de 65 anos.

A cloroquina funciona contra COVID-19?

Infelizmente, até o momento, a melhor resposta que se pode dar a essa pergunta é: não sabemos. Embora haja algumas evidências de que a medicação tenha ajudado pacientes com COVID-19 a se recuperar, esses dados não chegam perto de ser conclusivos. Por outro lado, já se sabe que há riscos em usar a medicação de maneira indiscriminada.

A noção de que a cloroquina funciona no tratamento contra COVID-19 não apareceu do nada. Um estudo de 2005 já mostrava que ela era eficaz em combater outro coronavírus (o agente patológico responsável pela doença SARS) em macacos.

Estudos mais recentes demonstraram a eficácia do remédio em combater o novo coronavírus (o SARS-CoV-2) in vitro. Ou seja: num ambiente de laboratório, foi possível observar que o medicamento era eficaz em combater o vírus. Isso, no entanto, não garante que o remédio será eficaz quando o vírus estiver num organismo.

Primeiros estudos

O primeiro indício mais confiável de que o remédio poderia ser usado no tratamento da COVID-19 foi publicado em 20 de março. Um artigo publicado por um grupo de pesquisadores, liderados pelo infectologista Didier Raoult, da Universidade Aix-Marseille, indicou que o princípio ativo reduziu o nível de infecção em alguns pacientes chineses.

A comunidade científica, no entanto, criticou pesadamente o artigo. Ele apresentava uma série de problemas, incluindo não usar placebos para comparar resultados e até mesmo falhas estatísticas nos cálculos dos pesquisadores. De maneira geral, portanto, considerou-se que aquela evidência era pouco confiável.

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Ao mesmo tempo, estudos mais rigorosos realizados na China apontava em outra direção. Uma avaliação publicada no Journal of ZheJiang University com 30 pacientes mostrou que não houve diferença nas taxas de recuperação de pacientes que usaram cloroquina e pacientes que receberam o placebo. Ou seja: de acordo com os dados desse estudo, não parece que a cloroquina funciona.

Mais dados, mais dúvidas

Nos Estados Unidos, na mesma época, outra pesquisa feita com 368 pacientes que tinham COVID-19 também mostrou que não houve diferença entre os pacientes que receberam o remédio e aqueles que não receberam nada. Sob essas perspectivas, portanto, o remédio não parece ser particularmente eficaz no tratamento da doença.

Além disso, um estudo do Centro de Medicina Baseada em Evidências, da Universidade de Oxford, também teve dificuldade em estabelecer a relação entre o uso do medicamento e a cura da doença. “Os dados atuais não endossam o uso de hidroxicloroquina para profilaxia ou tratamento de COVID-19”, diz a conclusão do estudo, publicado em 14 de abril.

Um estudo feito no Brasil, no entanto, colocou outras questões mais graves. Inicialmente, o estudo envolveria 440 pessoas com sintomas graves de COVID-19. Cada uma delas seria designada aleatoriamente para receber uma dose elevada ou baixa de cloroquina por 10 dias. Mas com base nos dados dos 81 primeiros pacientes, o estudo foi suspenso.

Dentre os pacientes que receberam doses elevadas de cloroquina, quase 40% morreram. Além deles, muitos outros tiveram um problema cardíaco que pode surgir como efeito colateral do tratamento com cloroquina. Apesar das limitações do estudo, os pesquisadores concluíram: a dosagem elevada de cloroquina não deve ser recomendada para pacientes com sintomas severos da doença.

Questão aberta

Todas essas pesquisas, no entanto, têm limitações que tornam difícil extrapolar os seus resultados para dar uma resposta geral. No estudo brasileiro, por exemplo, muitos dos pacientes também estavam sendo tratados com azitromicina, um antibiótico comum ministrado para impedir infecções.

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O estudo chinês, por sua vez, foi feito em condições mais rigorosas de controle — mas com apenas 30 pacientes. Não há, portanto, informações suficientes para se responder à pergunta de maneira consistente. A ciência, no entanto, está avançando: uma listagem de testes clínicos nos Estados Unidos mostra que há mais de 60 pesquisas sendo feitas sobre cloroquina e seu potencial uso para tratar COVID-19.

O que já se sabe

Por enquanto, o consenso das políticas públicas mundiais parece ser que a cloroquina não deve ser utilizada indiscriminadamente como remédio para a doença. Como já mencionamos, o órgão regulador de remédios do governo dos Estados Unidos já alertou contra os riscos de usá-la sem acompanhamento médico.

Há motivos para isso: mesmo nos usos já documentados da cloroquina (para tratar doenças como lúpus e malária), há efeitos colaterais perigosos associados ao remédio. Eles incluem alterações no ritmo cardíaco, problemas no fígado e danos nos rins, segundo a FDA (órgão dos EUA semelhante à nossa Anvisa). Usá-lo sem o devido acompanhamento médico, portanto, pode ser um risco muito maior do que contrair a COVID-19.

Um dos estudos mais robustos sobre o tema foi publicado no dia 11 de maio. Envolveu mais de 1400 pacientes de Nova York, tratados com hidroxicloroquina, azitromicina, ou uma combinação dos dois — além de um grupo de controle que não recebeu esses tratamentos. A conclusão? Nenhum dos medicamentos “esteve significativamente associado a diferenças em mortalidade hospitalar”.

E como a Scientific American recomenda em um artigo publicado no fim de março, ninguém deve tomar cloroquina para “prevenir” contra a doença. Não há nenhuma comprovação de que isso funciona. Ao contrário: o que se sabe com certeza é que o remédio pode ser danoso para algumas pessoas. E isso também pode fazer com que as pessoas que realmente precisam da medicação não consigam ter acesso a ela.

Enquanto não houver mais informações precisas e rigorosas sobre se a cloroquina funciona no tratamento do COVID-19, não será possível afirmar com certeza quando e por quem ela deve ser usada. Enquanto isso, a medida mais eficaz para combater a pandemia continuará sendo ficar em casa.

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