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08.08.16

China: economia e sociedade na visão de um bolsista brasileiro

estudar na China

Após dois anos na China, o colunista Wildiner Batista avalia alguns pontos importantes para quem está pensando em ir estudar no país - e mesmo para quem não está.

Por Wildiner Batista

Após quase dois anos morando na China, é tempo de voltar pra casa e compartilhar o que aprendi aqui. Embora não consiga resumir em um texto toda a minha experiência, há alguns pontos que considero importantes pra se ter em mente quando se pensa em China – especialmente para aqueles que pretendem vir estudar do outro lado do mundo.

A população chinesa é composta por 56 etnias, sendo que a etnia han (汉族) corresponde por mais de 90% da população. Algumas das minorias são separatistas, mas até aí nenhum problema muito grande – mesmo porque em situações extremas o governo poderia usar a força pra conter maiores danos.

Com tanta heterogeneidade, a chave da manutenção do sistema político-econômico chinês como o conhecemos reside na coesão do país e legitimidade do governo. Alguns argumentam o que dá sustentação ao país é o senso de civilização – afinal, estamos falando de 5 mil anos de história e, atualmente, há um nacionalismo crescente (mais algo na linha de confiança em relação ao governo do que a parte nociva do nacionalismo).

O que mantem coeso um país heterogêneo com grandes disparidades como a China é o ritmo de crescimento e consequente aumento da qualidade de vida

No entanto, a linha que mais faz sentido pra mim é a de que o que mantem coeso um país heterogêneo com grandes disparidades como a China é o ritmo de crescimento e consequente aumento da qualidade de vida da maior parte da população. Esta é a cola que sela o contrato social na China. Não é de se esperar mudanças substanciais na política e sistema de governo desde que a China consiga manter o ritmo de crescimento em 6,5-7,0% ao ano, com um crescimento de maior qualidade do que o das últimas décadas e redução das discrepâncias regionais.

No que diz respeito à política externa, aprendi muito em uma conversa com um intercambista de relações internacionais da Universidade de Tóquio.  Ele me deixou mais tranquilo quanto à Coreia do Norte, relação China-Japão, China-Taiwan e os recentes atritos no mar do Sul. Segundo ele, tensões devem ocorrer de tempos em tempos, mas nada com desdobramentos mais graves.

Isto se explica, em parte, pela busca por Soft Power – campo no qual a China está milhas atrás dos Estados Unidos, mas se esforçando para evoluir a longo prazo. São marcantes, por exemplo, a expansão do Instituto Confúcio, responsável por disseminar a língua e cultura Chinesa ao redor do mundo, o fato da China ter passado os Estados Unidos como recordista de medalhas nas duas últimas Olimpíadas. Além disso, há a expansão e internacionalização das empresas chinesas e eu não me espantaria se em 10 ou 20 anos estivermos indo ao cinema assistir a filmes chineses (e indianos também).

Aqui na Tsinghua tive a chance de participar de uma palestra cativante com o CEO da Mckinsey, Dominic Barton. Além dos insights sobre liderança, me chamou a atenção a afirmação de que apesar da queda nos últimos anos a tendência é de subida do preço do petróleo no médio prazo.

Outra oportunidade marcante foi a chance de acompanhar aulas de um professor de Harvard (professor visitante na Tsinghua), Niall Ferguson, que, entre outras coisas, mostrou um gráfico que me deixou boquiaberto: a partir de 2019 a China deve ter deficit energético. Resumindo, não é de se espantar que os chineses estejam entrando com tanta força no setor elétrico brasileiro (a exemplo a aquisição de parte da CPFL energia). Além disso, eu acredito que caso o projeto de lei que muda as regras dos futuros leilões do pré-sal seja aprovada, abrindo mais o mercado, os chineses aumentarão a atuação no setor petrolífero brasileiro – vale lembrar que eles já detém 20% de participação no consórcio vencedor do primeiro leilão do pré-sal.

Por último, o ponto que mais me chama a atenção é o mercado imobiliário chinês, principalmente o setor residencial. A média de preços subiu consideravelmente nos últimos anos, com destaque para Beijing e Shenzhen. Consequentemente, apesar do aumento da renda da população, a capacidade de compra ficou comprometida. Há um largo debate sobre se há ou não uma bolha imobiliária no setor na China, na minha opinião a melhor resposta é a que ouvi de um professor: “Se há ou não bolha não é a questão, a questão é se a película que envolve a bolha é espessa ou não”. Trocando em miúdos, se a correção dos preços vai ser gradual ou abrupta.

A potencial bolha por si só é um problema enorme, mas ele ganha proporções catastróficas quando a descobrimos que grande parte do financiamento da máquina pública a nível local está atrelada à venda de terra, direta ou indiretamente (para mais sobre o tema vale ler este artigo). Assumindo uma correção abrupta dos preços, basicamente teríamos cidades e províncias chinesas enfrentando o mesmo problema de insolvência enfrentado pelos estados brasileiros.

Considerando que um espirro da China pode deixar o mundo gripado, ninguém quer pagar pra ver a China com pneumonia. Afinal, não podemos nos esquecer que estamos tratando de um país responsável por mais de 10% de todo comércio internacional e, no caso do Brasil, nosso maior parceiro comercial.

 

Sobre o autor – Wildiner Batista é estudante de Engenharia Civil na Unicamp e está fazendo um intercâmbio de 2 anos na China pelo Ciência sem Fronteiras (CsF). No primeiro ano, ele estudou mandarim em Wuhan e agora estuda na Universidade Tsinghua, que é considerada a melhor universidade dos BRICS (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

 

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