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Talibã e mulheres: entenda a relação do grupo com o acesso à educação universal

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Talibã e mulheres: entenda a relação do grupo com o acesso à educação universal

Desde o início da semana, com o Talibã assumindo o controle do Afeganistão depois de 20 anos, a comunidade internacional voltou a atenção para a situação vivida pelos afegãos – principalmente para as mulheres. O histórico de brutal repressão de gênero por parte do Talibã dá como incerta a manutenção de direitos básicos das mulheres afegãs, entre eles o acesso à educação. 

Da última vez que o grupo assumiu o poder no Afeganistão, um regime que durou de 1996 a 2001, as mulheres foram proibidas de estudar, trabalhar, sair de casa desacompanhadas de um marido ou tutor do sexo masculino, além de impedidas de serem atendidas por médicos homens – foi um total banimento da vida pública. 

 

 

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O medo das afegãs de voltar a viver daquela forma já fez com que várias saíssem às ruas  em protesto contra o Talibã, mesmo com todos os riscos que isso representa para a vida delas. Na quarta-feira (19/08), em um desses atos, protestantes foram repreendidas de forma truculenta pelas forças militares afegãs:

No tweet a seguir, está escrito: “De acordo com um vídeo postado nas redes sociais, várias mulheres afegãs pretendem deixar o país após a conquista das cidades pelo Talibã.#افغانستان Chame as tropas dos EUA no aeroporto de Cabul para ajudá-los a fugir do Afeganistão”.

 

Mulheres com acesso apenas à área de saúde

Durante o regime anterior do Talibã (1996-2001), a única área em que as mulheres tinham chance de estudar e desenvolver uma carreira era no setor de saúde – em parte, porque elas eram as únicas que poderiam atender outras mulheres.

“Mas o que acontecia é que, em muitos organismos que tinham médicas e enfermeiras, as profissionais acabavam fugindo por conta dos conflitos, então não tinha pessoas para atender as mulheres”, explica Aureo Toledo, Ph.D e professor de Relações Internacionais e Estudos para Paz na Universidade Federal de Uberlândia, que voltou a atenção para o Afeganistão desde a Iniciação Científica.  

O resultado desse processo é que as mulheres não tinham acesso de qualidade ao sistema de saúde. Assim, em uma simples consulta, o médico só podia ter contato com o acompanhante homem, que ficava responsável por repassar todas as informações sobre a paciente.

Banimento dos estudos e da vida pública

A exclusão da vida pública teve consequências para todo sistema de ensino do Afeganistão. “Até então, muitas mulheres eram professoras, e quando elas não puderam mais trabalhar, o sistema educacional foi colapsando”, conta Aureo. Somente em Cabul, mais de 7 mil professoras foram demitidas e 63 escolas fechadas, o que afetou mais de 100 meninas, 8 mil universitárias, além de 150 mil estudantes do sexo masculino.

Atualmente, o Afeganistão possui um dos piores índices de alfabetização do mundo, onde menos de 80 meninas para cada 100 meninos concluem o primário, de acordo com o Global Education Monitoring Report 2020 (Relatório Global de Monitoramento da Educação), da Unesco. Uma das consequências desse deficit é o difícil acesso ao ensino superior no país. Nos rankins internacionais que avaliam as melhores universidades, como o QS Top Universities e o Times Higher Education, não consta nenhuma instituição afegã entre as 1000 melhores do mundo. 

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Em 1996, quando assumiu o país pela primeira vez, o Talibã chegou a reconhecer verbalmente o direito universal à educação, entretanto, proibiu através de um decreto que meninas acima de 8 anos, período de início da puberdade, estudassem. No primeiro momento, o decreto foi imposto com a justificativa de ser temporário, mas a medida nunca foi derrubada e durou até a queda do regime, em 2001.

Queda do regime e retorno gradual ao sistema de ensino

O fim do regime do Talibã aconteceu em 2001, após os atentados do World Trade Center, quando os Estados Unidos deu início à Guerra do Afeganistão e à ocupação do território afegão com a justificativa de combater o grupo Al Qaeda.

Com a saída do Talibã, “em centros urbanos era possível ver mulheres retornando para escolas já em 2001, mas em outras regiões esse processo foi mais lento”, explica o professor. Naquela época, houve um processo de reconstrução do sistema educacional no país que incluía a reestruturação das universidades.

De acordo com Aureo, nesse período aconteceram alguns avanços, como a obtenção de cotas para mulheres no parlamento em 2014.  “Muitas mulheres puderam fazer campanha, e algumas candidatas tiveram muito mais votos do que se imaginava”, conta.

Futuro incerto

No último dia 17, na semana em que o Talibã retomou o controle do Afeganistão, um representante do regime, Suhail Shahee, afirmou para o veículo Sky News que “estamos comprometidos com os direitos das mulheres, com a educação, com o trabalho e com a liberdade de expressão, à luz de nossas regras islâmicas”.

Entretanto, até o momento a ordem é para que as universidades no Afeganistão permaneçam fechadas. No tweet a seguir, de um veículo afegão, está escrito:

“Um oficial do Talibã afirma que, até novo aviso, todas as universidades da cidade estarão fechadas. De acordo com o funcionário do Talibã, a razão para esta decisão foi a situação militar na sociedade e os chefes desconhecidos de muitos departamentos sob controle do Talibã”.

A estudante Aisha Khurram, ex-embaixadora da juventude da ONU, contou no último dia 15 na mesma rede social: “alguns professores se despediram de suas alunas quando todos foram evacuados da Universidade de Cabul esta manhã … e talvez não vejamos nossa formatura como milhares de alunos em todo o país”.

Por que manter a repressão contra mulheres?

O professor Aureo conta que um dos principais motivos para o Talibã sustentar tantas políticas repressivas é uma tentativa de manter as aparências de que o regime segue as leis muçulmanas. “As mulheres se tornaram uma vitrine para mostrar para a população que o Talibã é de fato um movimento religioso”, explica.

“O Alcorão tem uma série de ensinamentos de código civil de vida, e tem coisas, em relação ao sistema financeiro e política, que o Talibã não consegue seguir”. Entre as contradições, está, por exemplo, uma suposta relação do grupo com o tráfico internacional de drogas. “As mulheres e minorias se tornaram uma vitrine para tentar justificar o injustificável”, explica. 

Pobreza e conservadorismo são agravantes

“É bem delicada a questão do acesso das mulheres à educação no Afeganistão, não só pelo Talibã mas porque existe uma resistência muito grande nas áreas rurais em relação a educação feminina”, explica Beatriz Carvalho, formada em Relações Internacionais com pesquisa sobre o Afeganistão e aluna do professor Aureo.

Ela conta que, durante o processo de reconstrução do país, após a saída do Talibã em 2001, houve um deficit de atenção em relação às zonas mais afastadas dos centros urbanos. “Raramente em lugares rurais existem escolas, e as que existem, a maioria não permite estudantes do sexo feminino”, explica.

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Além disso, ela conta que as mulheres no Afeganistão sempre conviveram com agravantes, como pouca mobilidade social e oportunidades de emprego. “As meninas sempre tiveram muito menos incentivo para continuar na escola, e com o Talibã isso piorou”.

PACE-A

Em 2006, durante a ocupação do território afegão e Guerra do Afeganistão, a agência governamental USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento) implantou no país o programa PACE-A (Partnership for Advacing Community-based Education in Afghanistan – parceria para promover a educação de base na comunidade no Afeganistão), com objetivo de expandir o aprendizado de qualidade e as oportunidades de vida para as populações marginalizadas, com foco em meninas e mulheres.

De acordo com Beatriz, apesar das dificuldades regionais enfrentadas, as iniciativas de incentivo aos estudos foram bem-sucedidas. “Eles conseguiram aumentar quase um milhão de crianças com acesso à educação, e as meninas representavam uma parte desses estudantes”, conta.

Origem do Talibã

“Talibã é o plural de talib, que significa estudante, são os estudantes religiosos”, explica o professor Aureo. A origem do grupo está relacionada ao fim da Guerra Fria. Nos últimos anos de domínio soviético na região, os Estados Unidos, país inimigo, investiu e treinou grupos armados para combater o então Governo Soviético (URSS).

Após a saída da URSS da região, esses grupos armados começaram a brigar entre si para assumir o governo, o que resultou em uma guerra civil que acabou com o país e durou entre 1992 e 1994.  “Em meio a uma população extenuada, surge um movimento que diz ser algo diferente, religioso e muçulmano, que começou a atrair a sociedade – cansada com tanto conflito”, explica.

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Foi assim que o Talibã chegou ao poder em 1996. O professor conta que, no auge, o regime chegou a governar 90% do Afeganistão. “Mas sempre tiveram focos de resistência”, afirma.

Queda do Talibã em 2001

Beatriz conta que, durante a ocupação dos Estados Unidos, o país se alinhou a senhores de guerra na tentativa de combater, num primeiro momento, a Al Qaeda, e posteriormente o Talibã. Isso “empoderou esses senhores em termos políticos, permitindo que eles alcançassem cargos no governo”, explica.

Com o passar do tempo, essa relação deteriorou a legitimidade do governo no Afeganistão. “Quando a população não consegue confiar no Estado, ela facilmente cai sobre a influência do Talibã”, conta a estudante.

Direito das mulheres à educação e à vida pública

“Quando a gente considera que a educação é uma ferramenta chave na busca pela paz, vemos que, quando as mulheres participam dos processos, há uma porcentagem maior de sucesso”, afirma Beatriz. Assim, o objetivo nesse momento é defender os avanços conquistados nas últimas décadas.

O acesso das mulheres à educação tem impacto positivo que vai além do ganho particular. De acordo com a estudante, “quando a gente fala sobre educação para mulheres, isso não está focado só na educação individual mas também na contribuição para a sociedade e para a transformação social”.

 

 

 

 

 

 

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