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01.09.16

Mercado financeiro e terceiro setor estão mais próximos do que se imagina

Terceiro setor

Uma das brasileiras mais destacadas no Reino Unido, Daniela Barone Soares conta como fez a transição após seu MBA 'tradicional' em Harvard.

Por Priscila Bellini

A mineira Daniela Barone Soares revolucionou o terceiro setor no Reino Unido. Por quase dez anos, Daniela liderou a Impetus Trust, organização que ensina a ONGs do Reino Unido princípios de administração, gerenciamento e formas de ser sustentável a longo prazo. Bolsista da Fundação Estudar durante o MBA em Harvard, hoje ela trabalha na área social e se divide entre projetos com o governo britânico, consultorias com organizações sem fins lucrativos e cargos como o de membro do Business Advisory Council da Saïd Business School, em Oxford.

Para ela, que já foi considerada uma das personalidades “que fazem o Reino Unido mais feliz”, do jornal The Independent, o seu ponto de virada não foi fazer um curso específico, voltado para impacto social. Ao contrário, o ‘insight’ foi ver que as habilidades que ela adquiriu no MBA ‘tradicional’ de Harvard e na sua carreira de private equity seriam muito relevantes para o terceiro setor.

Saiba mais sobre a trajetória dela e veja as dicas que ela oferece a quem deseja seguir carreira no terceiro setor e fazer a mudança acontecer.

#1 Como foi mudar do mercado financeiro para o terceiro setor?

Desde os 12 anos, fiz voluntariado no Brasil, com crianças carentes, órfãos e pessoas com deficiências físicas, e continuei fazendo isso a vida toda. Eu sempre quis fazer algo voltado ao social, mas não sabia como. Mas eu sabia o que eu não queria ser: não queria, por exemplo, ser assistente social, já que não era esse o trabalho em que eu me sairia melhor. Eu percebi isso em um dos voluntariados, quando eu ajudei a CEO de uma pequena ONG em Nova York a fazer um plano de negócios e pensar na estratégia da organização. E, para mim, isso foi algo fácil de fazer, até instintivo, já que eu trabalhava na época com private equity e venture capital. Eu lia planos de negócio todos os dias, tinha contato direto com isso. Naturalmente, eu também tinha uma abordagem estratégica, e isso era uma coisa que faltava numa organização como aquela.

Eu vi que com as habilidades que eu já possuía, poderia contribuir para o setor. Foi daí que eu tomei a decisão de mudar. Demorei um pouco para fazer essa transição, mas vi que tinha outras possibilidades com o que eu tinha aprendido na área de negócios. Quando a oportunidade apareceu, eu fiz essa mudança, depois de quase dez anos na parte comercial.

#2 Como a sua formação ajudou na hora de migrar para o setor?

Tudo sempre ajuda, a gente não perde nada. E, no meu caso, ajudou bastante porque o setor tem muitas pessoas apaixonadas e com muito compromisso, mas que na hora de administrar a entidade, não conseguem fazer uma boa gestão. Você tem que ter um processo, uma estratégia, uma estrutura pra isso, e é algo que a minha formação deu de sobra. Principalmente quando eu fui para a Impetus, já que nós dávamos essa estrutura para as ONGs em geral. A gente trazia eficiência e eficácia para essas organizações na Inglaterra, focadas em jovens de renda baixa e que não tinham preparação para o mercado de trabalho.

Eu vi que com as habilidades que eu já possuía, poderia contribuir para o setor. Foi daí que eu tomei a decisão de mudar.

#3 Quais outras carreiras mais permitem causar impactos sociais positivos?

Existem milhões de formas de ajudar socialmente. Você não precisa mudar de trabalho. O terceiro setor precisa de inúmeras habilidades que o setor privado tem. Precisa de recursos, de aconselhamento, de uma série de coisas. Todo mundo que quer se envolver nisso pode fazer, não precisa mudar de carreira. Dá pra se envolver independentemente do seu trabalho, da sua experiência.

[Na Impetus], a gente selecionava as instituições, com uma série rigorosa de critérios e, uma vez firmado o compromisso, fazia nelas um investimento social. Nós não recebíamos nenhum retorno financeiro, mas havia um retorno social do que estávamos fazendo. Nós combinávamos isso previamente, e ajudávamos a organização a desenvolver uma estratégia e um plano de negócios para alcançar as metas. Essa combinação ajudava organização a se profissionalizar e a crescer, e em paralelo a isso nós tínhamos um trabalho na criação e no gerenciamento de impacto. Tudo para entender se o que se fazia ali estava realmente resolvendo um problema social, se realmente estava ajudando a população-alvo no longo prazo. Nós coletávamos dados e fazíamos análises deles.

#4 E de quais habilidades o terceiro setor ainda precisa?

Cada organização tem a sua necessidade. Mas, em geral, tudo o que você precisa em uma companhia é o que vai precisar no terceiro setor, para administrar uma ONG. Na verdade, você precisa ainda mais. Comparado com private equity, por exemplo, o setor de ONGs é mais complexo. Isso não quer dizer que private equity seja fácil, mas que ele é simples de entender. A maior parte das decisões tem base no objetivo de lucro, isso é muito claro, é o objetivo primário. No setor social, você tem objetivos que competem entre si, e isso às vezes atrapalha nas decisões que você precisa tomar.

Por exemplo, quando eu estava na Save the Children, nós desenvolvíamos um trabalho importante na África, enquanto a unidade na Inglaterra também fazia um projeto com refugiados por aqui. As pessoas que doavam dinheiro para a iniciativa na África souberam que nós fazíamos um trabalho com refugiados na Inglaterra, e não gostaram disso. Eles falaram “ou vocês param esse projeto, ou a gente vai parar de doar e financiar o trabalho de vocês na África”. E aí, o que você faz? Se eu acho importante tanto o que desenvolvemos na África quanto na Inglaterra, como eu posso tomar uma decisão? Isso acontece no terceiro setor diariamente. Diariamente, você tem menos recursos do que o necessário pra fazer tudo o que precisa. Todo dia, você tem que priorizar e re-priorizar, rever e ver onde você pode dizer “não”, sem sair do seu foco estratégico.

O terceiro setor é tão vasto quanto o comercial, e você precisa identificar qual área tem a ver com os seus interesses, com a sua formação, com o que você quer

#5 Quais as principais dificuldades que um profissional enfrenta no terceiro setor?

Primeiro, o retorno financeiro é muito menor do que o que a pessoa alcançaria no setor comercial. Essa realidade de ter menos recursos pra tudo também é muito presente e diária. Você quer fazer uma coisa, mas vai ter que fazer de outra forma, vai ter que ser mais criativo, vai ter de encontrar alternativas não tão óbvias. Também é preciso ter uma paciência maior, já que se lida com muita gente que fala linguagens diferentes da sua. Quem não tem base comercial, fala uma língua diferente da sua, e você ainda tem de lidar com o governo, com fundações, com centros de pesquisa. É uma variedade de agentes com quem temos de lidar. Esse tipo de decisão, em especial pensando nos interesses que podem competir, fica um pouco mais complicada.

#6 Quais os conselhos para quem tem interesse em trabalhar no terceiro setor?

Antes de tudo, é essencial se informar. O terceiro setor é tão vasto quanto o comercial, e você precisa identificar qual área tem a ver com os seus interesses, com a sua formação, com o que você quer. Também é preciso saber que tipo de trabalho interessa mesmo. Uma coisa é fazer parte de campanhas populares, outra é trabalhar com políticas públicas, outra é ir a campo. Para mim, por mais que eu adorasse fazer trabalho voluntário com crianças carentes, essa experiência me afetava muito. Não dava para fazer isso todos os dias, no meu caso, mas tem gente que se dá bem e quer se dedicar a isso. Então, é necessário conhecer seu perfil. Também é bom “fazer a lição de casa”: falar com as pessoas do setor, se informar sobre ele, visitar organizações. Teste o campo em que você quer atuar, se engaje em trabalhos voluntários, testes as hipóteses na prática. Isso ajuda muito.

 

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