Aos 20 anos, a Líder Estudar Gabriela Frajtag comemora o fim de sua graduação. A carioca, que se formou no final de 2025 pela Ilum, escola de ciência ligada ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), planeja os próximos passos de sua carreira. Em meio a vários projetos e possibilidades para o futuro, ela permanece com a certeza de que um de seus compromissos é mostrar para outros jovens que é possível ser cientista no Brasil. Saiba mais sobre a trajetória de Gabriela a seguir:
O começo na Ilum
Como muitos alunos que se destacam na escola, Gabriela pensava em fazer faculdade no exterior. Com interesses diversos, que incluem história, robótica, química e linguística, ela considerava a interdisciplinaridade das universidades norte-americanas uma vantagem em relação às universidades brasileiras.
Durante o processo de application para estudar fora, conheceu a Ilum, que oferece um bacharelado em ciência e tecnologia com um forte componente multidisciplinar e interdisciplinar. Decidiu se inscrever.
“Quando recebi a notificação de aceitação da Ilum por e-mail, fui avisada de que eu tinha que estar em Campinas em uma semana. Eu, com 17 anos na época, falei para os meus pais e eles nem sabiam do que se tratava. Fomos de carro para conhecer e eles adoraram, meu pai falou que era minha cara”, conta.
A Ilum fica localizada em Campinas, São Paulo, e oferece o Bacharelado em Ciência e Tecnologia (BCT), curso que dura três anos. É uma instituição de ensino superior recente, que teve a primeira turma em 2022. A escola é totalmente gratuita e ainda proporciona moradia gratuita, transporte, vale refeição e laptop, entre outros benefícios.
É, de fato, uma formação completa para quem quer entrar no mundo da ciência e tecnologia sem uma especialização logo de cara. “Para mim, foi essencial fazer um curso de graduação interdisciplinar, para eu poder de fato entender o que quero fazer ao longo da minha vida”, diz Gabriela.
Um dos diferenciais da Ilum é o processo de candidatura, que não segue o modelo tradicional brasileiro. A avaliação é holística e inclui nota do ENEM, redação pessoal e entrevista.
O dia a dia na faculdade
A Ilum é ligada ao CNPEM, um dos centros de pesquisa mais avançados da América Latina. É lá que fica o Sirius, acelerador de partículas brasileiro. “No começo da faculdade, íamos lá para ter palestras. Depois, já começamos a trabalhar em projetos com outros pesquisadores. No último ano, para o TCC, você já passa a interagir de fato não como aluno, mas como pesquisador principal do seu projeto”, explica.
O contato com o CNPEM também trouxe uma surpresa para ela: “Eu não imaginava que o Brasil tinha um centro tão grande, tão magnífico de ciência de ponta. A ciência do Brasil é feita por pessoas inteligentíssimas”.
Ao longo dos semestres, o currículo é bastante diversificado, com matérias nas áreas de matemática, dados, ciência da matéria, ciência da vida e humanidades. De acordo com Gabriela, por ser uma escola pequena, os professores conhecem bem todos os alunos, o que cria uma relação de proximidade que ela considera uma das principais vantagens da Ilum.
Essa proximidade também se aplica aos colegas, já que a maioria vive nas quitinetes oferecidas pela faculdade. As turmas são pequenas e as aulas são em período integral, o que faz com que os estudantes fiquem ainda mais próximos.
Vida de cientista
No último semestre do curso, Gabriela lembra que ficou praticamente o tempo todo no LNBio, o Laboratório Nacional de Biociências, um dos laboratórios do CNPEM, dedicando-se ao seu projeto final de curso, que foi feito em dupla.
O trabalho de Gabriela e Bruno, sua dupla, era ligado ao impacto da agropecuária no meio ambiente. Como ela explica, a liberação de gás metano por animais ruminantes, como vacas e bois, é uma das grandes causas do aquecimento global. Essa liberação é espontânea, causada pela fermentação que acontece durante a digestão desses bichos. Gabriela e Bruno procuraram moléculas naturais que se ligassem às enzimas que geram metano para impedir essa produção. Na prática, seriam produtos naturais que os ruminantes poderiam ingerir. “Seria quase um remedinho antiarroto”, brinca.
A pesquisa foi toda feita em modelo computacional, e agora ela trabalha em artigos para publicar os resultados. O trabalho foi finalista no Prêmio Paulo Gontijo, que seleciona os melhores TCCs da instituição.
Em 2024, Gabriela teve a oportunidade de fazer um estágio no Instituto Weizmann de Ciências, em Israel, com Ada Yonath, vencedora do Prêmio Nobel de Química de 2009. “Aprendi muito sobre biologia molecular, foi uma experiência incrível”, conta. Ela ainda lembra uma coincidência: “Quando eu estava no ensino fundamental, fiz uma apresentação sobre mulheres na ciência e sobre ganhadoras do Nobel. E falei sobre a pesquisa da Ada Yonath, com quem eu agora trabalhei”.
Foi no último ano da graduação, em 2025, que Gabriela foi aprovada no Programa Líderes Estudar, que além da bolsa de estudos, oferece uma rede de apoio altamente qualificada. “Desde que entrei para a rede, ampliei meu horizonte: tive mais oportunidades internacionais, conversas inspiradoras e, principalmente, mais confiança em mim mesma”, afirma.
Próximos passos
Gabriela já tem os próximos passos mais ou menos traçados: quer fazer mestrado na Unicamp, na Faculdade de Ciências Farmacêuticas, estudando biologia molecular com relação ao câncer. Ela conta que pretende seguir na carreira acadêmica, possivelmente com um doutorado e outros estágios no exterior.
Ela enfatiza: “Eu sinto que a carreira científica não é linear, e eu acredito que todo cientista tem a missão de fazer sua ciência não apenas compreensível para o público, mas torná-la importante para a sociedade. Então, de fato, a carreira que eu pretendo não vai ser totalmente linear”. Ela explica que também tem interesse em empreender e em divulgação científica, por exemplo.
Apesar da vontade de estudar fora, ela garante que seu futuro é no Brasil: “Eu me enxergo voltando para o Brasil, quero realmente fazer a ciência no Brasil ser algo mais visível e mais possível também como uma oportunidade para muitos jovens inteligentes”.
Uma das missões de Gabriela é mostrar que a ciência também é uma carreira para pessoas que, por falta de oportunidades, deixam esse sonho de lado. “É possível seguir carreira acadêmica, virar cientista, trabalhar em laboratório, isso é possível no Brasil”, diz.
Ela finaliza dizendo que não só é possível, como existem várias oportunidades e vários caminhos para se tornar um cientista. “Eu diria que o principal é sempre manter a curiosidade, ir atrás. De fato, muitas vezes as oportunidades não vão até você, você tem que procurar, tentar abrir as suas próprias portas”.
Como conselho, Gabriela deixa uma ideia que sempre carrega consigo: “É fundamental ter paixão pelo que se faz, acredito que o sucesso vem da paixão por responder às perguntas que te interessam”.












