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19.03.14

Entre culturas: Os anjos dos viajantes

Entre culturas: Os anjos dos viajantes

Quando estamos em terras desconhecidas, estes seres aparecem em nossa vida em formato de um estrangeiro ou na pele de um conterrâneo para salvar o nosso dia

Por Gabriela Ribeiro – Psicóloga Intercultural 

Você já cruzou com algum anjo dos viajantes?!

Eu já! E poderia contar muitas histórias de todos esses seres que um dia cruzaram o meu caminho, fazendo toda a diferença no desfecho das minhas histórias por ai.

Bem, mas você sabe o que é um anjo dos viajantes?

Quando estamos em terras desconhecidas, estes seres aparecem em nossa vida em formato de estrangeiro ou na pele de um conterrâneo para salvar o nosso dia. São peritos em mostrar um caminho secreto, uma paisagem escondida que, sem uma dica de ouro dos tais anjos, jamais teríamos a oportunidade de conhecer e desfrutar. Quando menos esperamos um deles surge para nos proteger, salvar de perigos… Divertir-nos de maneira peculiar.

Numa aventura far away from home, no Marrocos, eu estava com mais três amigas numa viagem noturna de trem com duração de 9h, e um desses anjos entrou em nossa cabine. Sem pedir licença, colocou sua bagagem no meio da nossa e começou a falar conosco em árabe com muita empolgação. Ha! Nenhuma de nos falava árabe e demonstramos isso. Mesmo assim, ela não desistiu e seguiu falando. Pegamos dicionários de francês, inglês, espanhol e português. Não adiantou nada! Quando buscamos, avidamente, compreender o que aquela senhora marroquina queria dizer, através de mímicas e de tudo que comunicação não verbal permite, descobrimos o que de fato significa a linguagem dos anjos: Não podemos entender uma palavra do que eles dizem, mas nosso coração pode sentir e captar a mensagem. Ela estava dizendo que cuidaria de nós durante toda a jornada.

Mas como aquela senhora cuidaria da gente???

Ah, ela cuidou. O que não sabíamos é que apenas homens entravam naquele trem durante a noite. E, claro, quatro meninas estrangeiras, “descobertas”, que não fossem espertas poderiam se meter em confusão. O trem iniciou a viagem e o sono foi pegando, inclusive no anjo marroquino. Entretanto, cada vez que o trem parava para os passageiros (grande maioria homens) entrarem, nossa guardiã acordava e ia para a porta da cabine até a circulação de gente parar. O trem andava, ela voltava dormir. E assim ela nos protegeu durante a viagem INTEIRA. Chegando em Marrakesh ela nos conduziu a uma mulher que fala inglês e que nos ajudou a encontrar uma hotel legal e um guia muito especial para nos conduzir pelo enorme e misterioso mercado da cidade.

Como uma defensora da paz e das relações interculturais, ao atentar para as características desses anjos, como generosidade, solidariedade, criatividade para o entendimento, flexibilidade… Entendo que estamos falando de intercultura!

Ser intercultural é isso: é estar atento as pessoas ao seu redor e se propor a deixar uma marca bonita na vida delas. E deixar com que a elegância e a curiosidade em direção ao diferente e até mesmo ao que nos causa desconforto se façam presente em nossas atitudes e palavras. Não importa que não falemos a mesma língua ou que nossas roupas sejam completamente distintas. O que nos une é o amor, desejo genuíno de colaborar e o esforço de ambas as partes de se entender.

Poderíamos ter pedido para o anjo marroquino para se retirar, afinal, não foi convidada a viajar em nossa cabine. Poderíamos ter desistido de entendê-la ou até mesmo não ter dado espaço para a conversa. Poderíamos… Mas escolhemos ser educadas e gentis. Escolhemos sim, pois quanto mais responsabilizamos a nós mesmos pela forma como agimos e como queremos atingir as pessoas, mas chance temos de imprimir nos relacionamentos e fatos a cor que desejamos.

A pessoa intercultural não teme se responsabilizar pelo que faz, pois baseia suas ações em valores elevados e nas melhores intenções. Ah.. e como vale a pena viver a vida assim! Se preocupar em ser feliz, mas também provocar alegrias, alívio e conforto nos outros.

Repito a pergunta acima: você já encontrou algum desses anjos? E preste atenção, se a resposta é negativa, pode ser que suas ideias e atitudes estejam repletas de etnocentrismo e preconceito. Os anjos dos viajantes, por mais que desejem, não conseguem se aproximar de gente assim. E outra questão, amigos: Vocês têm sido anjos por aí?

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Gabriela Ribeiro – Colunista sobre Psicologia e Educação Intercultural 

GabrielaÉ psicóloga com formação na PUCRS, em Porto Alegre.  Recebeu profunda formação na metodologia Intercultural Training®, desenvolvida por Andréa Sebben através de sua longa trajetória de estudos e trabalhos na Europa e Brasil. Fez intercâmbio na Inglaterra e Nova Zelândia e já esteve em 28 países. Participou de cursos de formação nas Ciências Interculturais em países como o Chile, Argentina, Venezuela, Costa Rica e Colômbia. Há 7 anos ministra palestras e Treinamentos Interculturais em todo Brasil, em diversos idiomas, é membro da IAIE – International Association for Intercultural Education.

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