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Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha: 9 brasileiras reconhecidas no mundo todo

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Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha: 9 brasileiras reconhecidas no mundo todo

O dia 25 de julho é reconhecido como o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha. Essa data foi instituída em 1992, por ocasião do primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas em Santo Domingos, capital da República Dominicana, e foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas no mesmo ano.

A reunião dessas mulheres foi motivada por uma luta comum por melhores condições de vida. A América Latina ainda é, infelizmente, uma região que concentra muitos dos países com as maiores taxas de feminicídio, segundo relatório da ONU. Nove mulheres são mortas por dia na região, vítimas de violência de gênero, três por dia só no Brasil. E no Brasil, mais de 60% das vítimas desse crime são negras.

Por isso, a luta das mulheres negras latinas e caribenhas continua sendo um tema importante. E mesmo diante dessa situação, no Brasil, mulheres negras tiveram realizações imensas, que não apenas beneficiaram nosso país como também lhes renderam reconhecimento no mundo todo.

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Por isso, para marcar a data, listamos abaixo nove mulheres negras brasileiras, de diversas áreas, cuja excelência lhes fez ser reconhecida internacionalmente. Confira:

9 mulheres negras brasileiras reconhecidas no mundo todo

Sueli Carneiro

Nascida em São Paulo em 1950, Sueli Carneiro começou a estudar Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) em 1971, em meio à ditadura militar, e hoje é doutora em Filosofia da Educação pela USP. Escritora e ativista do movimento antirracista, participou de diversas lutas pela inclusão de negros e negras em espaços de política pública desde a década de 80. Em 1988, fundou o Geledés — Instituto da Mulher Negra, a primeira organização negra e feminista independente de São Paulo.

Defendeu causas como as ações afirmativas em universidades públicas brasileiras e a participação de mulheres negras no Conselho Estadual da Condição Feminina, na década de 80. Escreveu mais de 150 artigos e 17 livros por meio dos quais uniu sua reflexão teórica à prática ativista, e recebeu o Prêmio de Direitos Humanos da República Francesa pelo seu trabalho. É reconhecida como uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil e na América Latina.

Conceição Evaristo

A escritora belorizontina Maria da Conceição Evaristo de Brito, nascida em 1946, foi a segunda de nove irmãos, e tornou-se a primeira de sua casa a conseguir um diploma universitário. Estudou Letras na UNiversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e conquistaria, mais tarde, o mestrado pela PUC-RJ e o doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Suas obras literárias começaram a ser publicadas em 1990 e, desde então, teve textos publicados em antologias no Brasil, Reino Unido, Estados Unidos e França.

Entre diversos temas, suas obras como Ponciá Vicêncio abordam a condição de pessoas negras e de classes sociais desfavorecidas. Segundo ela própria, a memória é um grande motor de sua escrita: “Escrevo. Deponho. Um depoimento em que as imagens se confundem, um eu-agora a puxar um eu-menina pelas ruas de Belo Horizonte. E como a escrita e o viver se con(fundem)”.

Marielle Franco

Marielle Franco

Nascida e crescida no Complexo a Maré, na cidade do Rio de Janeira, Marielle Francisco da Silva graduou-se em Ciências Sociais pela PUC-RJ e fez o mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense. Tornou-se vereadora do Rio de Janeiro pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) com a quinta maior votação das eleições municipais de 2016. Como política, defendeu os Direitos Humanos e lutou contra a intervenção federal no Rio de Janeiro, denunciando abusos das Forças Armadas e da Polícia Militar nas comunidades em que atuavam.

Marielle e seu motorista Anderson Pedro Mathias foram assassinados em 14 de março. Ainda se investiga a ligação de seu assassinato com milícias do Rio de Janeiro. O Calendário Oficial do Estado do RJ hoje reconhece 14 de março como o “Dia Marielle Franco”, e ela foi agraciada pelo Congresso Nacional Brasileiro em 2019 com o Diploma Bertha Lutz. A Universidade Johns Hopkins criou uma bolsa de estudos em sua homenagem em 2018.

Lélia Gonzalez

Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte em 1935, mas mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Lá, graduou-se em história e Filosofia pela Universidade Estadual da Guanabara (UEG), seguindo para o mestrado em Comunicação Social pela mesma instituição e, depois, fazendo o doutorado em Antropologia. Foi professora da PUC-RJ de 1978 a 1994, e chefiou o departamento de Sociologia e Política da instituição.

Como ativista ao longo da década de 1970, Lélia participou das mobilizações políticas e artísticas que trouxeram para o cenário brasileiro as discussões do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Por meio dessas mobilizações, reprimidas pela ditadura militar, buscavam questionar o lugar subalterno dos negros na sociedade brasileira.

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Lélia também é considerada uma das pioneiras em discutir, na academia, as relações entre raça e gênero. Em livros como Lugar do Negro e artigos como “Por um Feminismo Afrolatinoamericano”, ela avança discussões sobre a sociedade brasileira, questionando interpretações clássicas como o mito da “democracia racial” a de Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala. Até seu falecimento em 1994, continuou colaborando com pensadoras brasileiras e estrangeiras, como Angela Davis.

Carolina Maria de Jesus

Carolina Maria de Jesus foi uma escritora brasileira que viveu de 1914 a 1977. Ela é mais lembrada por seu livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, que foi uma das primeiras obras a relatar, em primeira pessoa, as condições de vida nas margens dos grandes centros urbanos brasileiros. O livro foi um sucesso imediato: sua primeira tiragem de 10 mil exemplares esgotou-se em uma semana. Foi traduzido para 16 idiomas e vendido em 40 países, dando a Carolinha Maria de Jesus não só uma oportunidade de ascenção social, mas também reconhecimento internacional por sua competência literária.

Ela não chegou a completar o ensino fundamental, pois sua mãe precisou mudar-se para o interior, sem conseguir manter a si mesma e aos filhos na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, onde ela nasceu. Carolina Maria de Jesus veio para São Paulo e morou na favela do Canindé, e seu livro mais famoso relata sua vida nesse período. Depois do sucesso, foi para Santana e, em seguida, para Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. O sítio onde viveu por lá hoje leva seu nome, assim como a biblioteca do Museu Afro-Brasil, no parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Lisiane Lemos

Lisiane Lemos

Mulheres negras em cargos de gestão em empresas de tecnologia ainda são, infelizmente, poucas. Mas Lisiane Lemos, atual gestora de novos negócios do Google, é uma delas. Nascida no Rio Grande do Sul, Lisiane estudou Direito na Universidade de Pelotas e trabalhou por cinco anos na área de vendas da Microsoft, de onde saiu para assumir seu cargo atual no Google.

Além do sucesso profissional, Lisiane também fala inglês, espahol e italiano, e tem uma importante atuação de compartilhamento de conhecimento tanto no LinkedIn quanto no Instagram. Nas redes, fala sobre como a diversidade pode impactar positivamente as empresas e os ambientes de trabalho, e sobre como organizações podem agir para tornar-se mais inclusivas. Também já foi palestrante do TEDx sobre esse tema.

Djamila Ribeiro

Djamila Ribeiro é filósofa, feminista e acadêmica. Formou-se em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 2012 e conquistou o mestrado em Filosofia Política na mesma universidade em 2015. Conseguiu levar seus estudos a um público maior por meio de uma ampla atuação em redes sociais e, em 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania na Prefeitura de São Paulo. Em 2019, foi convidada pelo governo francês para participar do programa Personalidades do Amanhã por sua projeção atual. Atualmente, também é colunista da Folha de São Paulo.

Questões de gênero e raça são os principais temas de Djamila. Em livros como O Que é Lugar de Fala? e Quem Tem Medo do Feminismo Negro?, ela fala sobre a maneira como a sociedade brasileira segue marginalizando mulheres negras, e sobre as insuficiências de alguns movimentos feministas em incluir essas mulheres. Além de tratar do racismo no plano material (mostrando como mulheres negras ainda tem menos oportunidades de ascenção social do que mulheres brancas, por exemplo), também fala sobre os aspectos do racismo nos discursos, na mídia e em outras representações.

Elza Soares

Escolhida como uma das “cantoras do milênio” pela BBC ao lado de nomes como Tina Turner, Elza Soares é uma das principais responsáveis por representar a música brasileira no exterior. Nascida em 1930, só começou sua carreira musical em 1953, após já ter perdido dois filhos, em um programa de rádio comandado por Ary Barroso. Seu sucesso foi instantâneo. Já em 1960 fez sua primeira turnê internacional, e em 1962 foi ao Chile representar o Brasil na Copa do Mundo de 1962.

Desde então, quase não parou de gravar novos discos e fazer shows no mundo todo. Seu álbum mais recente, Planeta Fome, de 2019, chegou a ser considerado o melhor disco de música brasileira do ano. E seus trabalhos anteriores, Deus é Mulher (2018) e Mulher do Fim do Mundo (2015) tiveram recepção ainda mais calorosa, tanto do público quanto da crítica.

Marcelle Soares-Santos

Marcelle Soares-Santos
Marcelle Soares-Santos (crédito: Symmetry Magazine)

A física brasileira Marcelle Soares-Santos recebeu em 2019 um dos maiores prêmios para pesquisadores em incício de carreira: o Alfred P. Sloan Research Fellowship. Dentre os ganhadores desse reconhecimento, 47 deles foram agraciados posteriormente com o prêmio Nobel. Nascida em Vitória, no Espírito Santo, em 1983, ela graduou-se em física na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em 2004. De lá, seguiu para o mestrado na USP e concluiu, em 2010, seu doutorado em astronomia na mesma instituição.

O trabalho de Marcelle é da área de cosmologia, mais especificamente sobre “energia escura”: trata-se de uma fonte de energia ainda não identificada mas que seria uma das responsáveis pela expansão acelerada do nosso universo. Ela foi uma das principais responsáveis pela construção da câmera usada no projeto Dark Energy Survey (DES), uma iniciativa de pesquisa multinacional nessa área. Atualmente, é professora da Brandeis University, nos Estados Unidos.

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