Por Daniel Agi Pigini
Minha mãe costuma dizer que “a curiosidade matou o gato”. Se você é como eu, o tipo de pessoa que ama fazer perguntas e não se cansa enquanto não encontra respostas, você também deve odiar essa frase. Afinal, o que seria de nós sem a curiosidade? Todas as grandes descobertas e invenções vieram de algum “gato” que não se deu por satisfeito.
Apesar disso, muitas vezes podemos sentir como se nossa curiosidade estivesse nos sabotando. No meu caso, isso veio na forma de interesses bem diferentes. Eu amo poesia e física. Linguística e matemática. Debate e tecnologia. Filosofia e empreendedorismo.
E o que aconteceu comigo (e acredito que com muitas pessoas antes e depois de mim também) é que cheguei a um ponto em que me questionei: “Será que eu não estou sendo uma pessoa autêntica o suficiente?” “Será que as universidades vão pensar que eu sou só uma pessoa genérica, sem um perfil claro que se sobressaia?” E talvez a mais importante de todas: “Então como escolher quais atividades fazer, já que eu tenho tantos interesses diferentes?”
Esse sentimento se intensificou à medida que minha trajetória me fazia conhecer pessoas extremamente geniais e competentes— em algum assunto bem específico. O tipo de gente que quer entender tudo sobre a produção de alimentos que possam ser usados em viagens espaciais ou o papel das mulheres na sociedade asteca. Esse tipo de interesse bem “nichado” é chamado intradisciplinaridade, e é uma ótima forma de fazer seu perfil se destacar dos demais.
Com o tempo, no entanto, eu aprendi algo que me fez ter uma compreensão bem maior de quem eu era e me deixou bem mais seguro em relação ao caminho que eu estava trilhando, e é isso que quero compartilhar aqui. Então se você vir que seu colega já publicou mil artigos sobre niilismo-aplicado-a-tai-chi-em-língua-de-sinais-nicaraguense enquanto você ainda nem sabe se é de exatas ou de humanas, não se desespere! Existe outro tipo de habilidade que é muito valorizada: a multidisciplinaridade. O tipo de gente que ama aprender sobre coisas tão distintas quanto astrofísica e cinema.
Não existe ninguém que se encaixa totalmente em um rótulo específico, porque somos todos humanos e, consequentemente, complexos. Somos formados por várias partezinhas diferentes e não tem nada de errado com isso. Mostrar quem você é não é sobre se reduzir a apenas uma dessas partes em uma tentativa de evidenciar o que existe de mais exótico sobre você. É muito mais sobre como você conecta cada um desses pedaços.
Eu gosto muito de uma analogia que compara nossa vida a uma pintura impressionista. Quando você olha para ela muito de perto, você vê pinceladas de cores completamente diferentes sobrepostas umas às outras. Parece que uma pincelada não tem nada a ver com a outra, que foram colocadas lá ao acaso. Quando você se afasta, no entanto, e olha para o quadro todo de uma vez, tudo se encaixa. Você entende a razão de cada uma daquelas pinceladas de cores que não têm nada a ver umas com as outras estarem exatamente no lugar em que elas estão. Tudo se encaixa e passa a fazer sentido, um sentido muito mais bonito do que qualquer cor isolada jamais poderia ter.
É possível pensar em atividades extracurriculares do mesmo jeito. Coloque debate e teatro um do lado do outro, e parece que são cores completamente diferentes, que não combinam. Mas se afaste um pouquinho e veja o quadro inteiro: um aluno que é capitão da equipe de debates e diretor da companhia de teatro, usando as duas experiências para desenvolver habilidades de liderança e gestão de equipes ao mesmo tempo em que explora uma paixão na área de comunicação e retórica. A imagem deixa de ser um apanhando grotesco de atividades que não dialogam e passa a ser o retrato de um líder que explora paixões complementares.
Uma dica final e muito importante é: não deixe de fazer nada de que você goste. Não comece a fazer nada que não te deixe empolgado. Sua meta aqui não é impressionar ninguém. É ser você mesmo. E se divertir no caminho.
A grande questão não é quais atividades você faz, mas como você une elas. Como você confere a elas uma identidade nova que seja só sua. Deixe a sua criatividade falar mais alto! Não se preocupe, ela não vai te matar. As cores estão à sua disposição. Vá lá e faça o seu retrato.
A coluna acima foi escrita por Daniel Agi Pigini, participante do Prep Program, preparatório da Fundação Estudar com foco em jovens que desejam cursar a graduação no exterior. Totalmente gratuito, o programa oferece orientação especializada sobre o processo de candidatura em universidades de fora do país. Saiba mais e faça sua inscrição aqui.
Daniel é medalhista internacional e fundador de diversas iniciativas educacionais em Anápolis (GO). Seja explorando um problema de física, decodificando um sistema linguístico ou se envolvendo com obras poéticas, ele busca unir curiosidade e paixão para transformar vidas por meio da educação, da inovação e da tecnologia.