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Segunda onda da COVID-19: o que dizem as universidades e instituições de pesquisa

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Segunda onda da COVID-19: o que dizem as universidades e instituições de pesquisa

De setembro para cá, diversos países da Europa vêm presenciando um novo aumento no número de casos da COVID-19. No Brasil, o número de internações por COVID começou novamente a aumentar a partir de novembro. Esses dados vão ao encontro de diversas pesquisas publicadas tanto recentemente quanto na época do início da pandemia que sugeriam que uma segunda onda da COVID poderia acontecer ainda em 2020. Essas pesquisas, porém, também dão sugestões de como superar essa segunda onda.

O que é a segunda onda da COVID?

A ideia de uma segunda onda da pandemia vem do fato que as medidas de contenção da doença (isolamento social, ampla testagem de pessoas com sintomas, rastreamento de contatos, etc.) raramente conseguem exterminá-la por completo. Conseguem, isso sim, reduzir em muito o número de casos em qualquer período de tempo.

Mas como a COVID-19 é uma doença altamente contagiosa, uma única pessoa infectada pode transmití-la a centenas de outras. Por isso, mesmo que uma cidade fique meses em quarentena, um único caso após a reabertura pode fazer com que a pandemia volte com força total. Essa “volta” é a tal segunda onda, e pode ser ainda mais letal do que a primeira em alguns casos.

Por que a ela acontece?

Um estudo publicado em outubro por pesquisadores dos EUA, Canadá, Filipinas e Moçambique identificou alguns fatores que podem afetar a força desta segunda onda. Usando modelos matemáticos e dados da primeira onda de infecções em diversos países, eles chegaram a uma série de conclusões interessantes.

Notaram, por exemplo, que a probabilidade de um país ter uma segunda onda é maior em locais em que a taxa básica de reprodução da doença é menor. Essa taxa básica é, resumidamente, o número de pessoas para as quais cada infectado transmite a doença.

Além disso, também perceberam que a segunda onda tende a ser pior do que a primeira em países que adotaram fortes medidas de restrição no começo da pandemia. Segundo os pesquisadores, isso se deve, em parte, a fatores sociais: pessoas em isolamento por muito tempo acabam relaxando suas medidas de segurança após alguns meses, o que as torna mais propensas a contrair (e disseminar) a doença.

Esse estudo corrobora os dados de um artigo publicado por pesquisadores chineses no The Lancet em abril. Naquele momento, a China já tinha contido a doença em algumas regiões e começava a avaliar o surgimento de uma “segunda onda” nelas. Os pesquisadores notaram que “o relaxamento prematuro de intervenções rígidas” é um dos fatores que levam ao aparecimento de uma segunda onda.

A segunda onda vai ser pior que a primeira?

Esse relaxamento prematuro tem o potencial de levar a uma nova onda de infecções ainda mais grave que a primeira. De fato, desde o fim de outubro o governo francês já trabalha com essa possibilidade. E a Itália registrou, no mesmo mês, seu maior número de casos em 24h desde o começo da pandemia.

Essas informações também corroboram os achados de um estudo publicado no fim de setembro por pesquisadores de universidades da Itália e da França. Usando técnicas de modelagem matemática com base em dados da primeira onda, eles tentaram prever quando e onde aconteceriam as “segundas ondas” na Europa, e qual seria sua intensidade.

Bem no final do estudo, após as informações dos autores, há duas animações que ajudam a entender a dinâmica. Resumidamente, a simulação feita pelos pesquisadores mostrou praticamente todos os países do continente sofrendo “segundas ondas” de intensidade semelhante (às vezes até maior) do que a primeira.

É particularmente interessante, nesse estudo, o caso da Suécia. O país nunca chegou propriamente a encerrar a “primeira onda”. Mesmo assim, após algumas semanas de queda no número de novos casos, o país experimenta (segundo o estudo) mais um surto de infecções.

Isso sugere que o fato da “primeira onda” não tenha acabado não impede que a segunda onda comece a surgir. A figura 5 do estudo mostra a situação dos países nórdicos. E esses dados podem ser particularmente importantes para o Brasil também.

E no Brasil, vai ter segunda onda?

Em São Paulo, já há indícios de que uma segunda onda da pandemia de COVID-19 está chegando. Na metade de novembro o governo do Estado admitiu o aumento no número de casos após hospitais da rede pública e particular mencionarem aumentos em suas taxas de internação e ocupação das unidades de tratamento intensivo (UTIs).

Além disso, algumas características da resposta brasileira à pandemia indicam que pode haver uma segunda onda também. Um estudo feito pela Universidade de Oxford com dados da Confederação Nacional de Municípios deixou claro que as medidas tomadas por aqui podem gerar esse novo surto de casos.

Segundo o estudo, “o relaxamento das intervenções não-farmacêuticas começou, em alguns casos, no fim de março”, e “não foi sempre relacionado à queda no número de casos confirmados”. “Intervenções não-farmacêuticas” é o nome dado a medidas de saúde pública que tentam controlar a disseminação do coronavírus.

Como já mencionado em outro estudo, relaxamento prematuro das medidas de restrição é um dos fatores que pode levar a uma segunda onda pior do que a primeira. Outros pontos agravantes que o estudo menciona é que os municípios não coordenaram o relaxamento das intervenções com outros municípios vizinhos, e muitos deles fizeram esse relaxamento antes mesmo de atingirem o pico do número de infecções.

Como prevenir?

De certa forma, não há “segredos” para prevenir uma segunda onda de COVID-19. As medidas necessárias são as mesmas que as que foram (ou deveriam ter sido) utilizadas no começo da pandemia para “achatar a curva” e diminuir a velocidade de transmissão da doença.

Essas medidas incluem: ampla disponibilização de testes, quarentena das pessoas com casos confirmados e rastreamento de contatos dos casos confirmados (e quarentena das pessoas que tiveram contato com elas).

Além disso, evitar aglomerações tanto quanto possível, tomando as medidas necessárias para isso (fechar escolas e comércio não-essencial), orientar uso de máscaras e outras medidas de proteção, e coordenar ações nas escalas municipal, estadual e federal.

São medidas cuja eficácia já foi apontada por diversos estudos publicados pelo Imperial College London no começo da pandemia. Naturalmente, porém, adotar essas medidas exige medidas adicionais, como oferecer auxílio emergencial às pessoas que serão privadas de renda por não poder trabalhar, conceder crédito emergencial a negócios que precisarão ficar fechados, reorganizar calendários escolares, entre outras. E é possível que, assim como na primeira onda, não haja disposição política para adotar essas medidas.

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