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Mulheres no Oriente Médio: saiba o que esperar se você vai estudar lá

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Mulheres no Oriente Médio: saiba o que esperar se você vai estudar lá

Quem pensa em estudar noe xterior não deve deixar de considerar países do Oriente Médio. Países como Emirados Árabes Unidos, Qatar, Omã e Líbano têm algumas das melhores universidades “jovens” do mundo, e com frequência oferecem bolsas de estudo para estrangeiros. Mas ainda há muito receio quanto à maneira como mulheres no Oriente Médio são tratadas.

Para tratar sobre esse tema, conversamos com duas brasileiras que estiveram em países diferentes da região. A experiência delas revela algumas dificuldades e pontos sobre os quais é preciso estar atenta. As duas, no entanto, não viram nessas dificuldades algo que deva impedir que mais brasileiras conheçam a região. Confira:

Recepção

A jornalista e especialista em gênero Priscila Bellini fez um curso intensivo de língua árabe na Jordânia em 2017 — na época, ela até gravou um vídeo para o Estudar Fora sobre sua experiência. Mas essa não foi sua primeira experiência no Oriente Médio: antes, ela já tinha ido para o Qatar e para a Palestina.

A primeira dessas viagens ela fez aos 16 anos, e conta que foi nessa viagem que ela sentiu receio. Quando teve a oportunidade de ir para a Jordânia, ela conta que, graças às suas experiências anteriores, já foi bem mais tranquila.

“As pessoas têm um preconceito, um receio”, comenta. No entanto, ela acredita que alguém que imagine os povos árabes como aqueles estereótipos de terroristas extremistas religiosos “vai se surpreender muito positivamente, porque a hospitalidade árabe é no mesmo nível da do Brasil”.

Claudia Massei, CEO da Siemens de Omã, já tinha morado e trabalhado em diversos países quando assumiu seu posto atual, e também fez a comparação com o Brasil. “São muito gentis e muito hospitaleiros, todo mundo tenta ajudar e quer que você goste do país”, comenta. Ela conta que consegue se virar perfeitamente bem por lá falando inglês, e por isso ainda não dominou o idioma local.

Priscila, que foi para a Jordania justamente para estudar árabe, já tinha um conhecimento considerável do idioma antes de viajar, pois estudava-o desde o ensino médio. Ela considera que é importante ter pelo menos um conhecimento básico do idioma antes de chegar ao país, para poder se virar em situações complicadas. Conhecer pessoas que possam ser uma “rede de apoio” no local também é uma boa ideia.

Vestimento

A questão das roupas, segundo Priscila, varia bastante de acordo com o país. Na Arábia Saudita, por exemplo, “as pessoas esperam que você se vista de determinada forma e, se você não se vestir assim, elas vão estranhar”.

Como CEO regional de uma empresa multinacional, Claudia naturalmente teve uma posição diferente ao visitar a Arábia Saudita. Ela lembra que, de fato, o costume por lá é que mulheres usem abayas, roupas largas que cobrem o corpo e os cabelos. Mas ela se sentiu à vontade para usar tailleur, saia e jaqueta. No Omã, ela conta que usa blusa regata em sua sala de trabalho. “Eu não saio no meio do escritório assim, mas se eles vem até mim, vão ver”, diz.

Priscila também visitou o Qatar e diz que não usou véu para cobrir o rosto e não teve nenhum problema.”Lá, as pessoas estão andando de regata na rua. As coisas estão mudando”, comenta. No entanto, ela considera que, de maneira geral, o costume é que mesmo turistas no Oriente Médio usem roupas mais largas. “Mesmo homens [que vão para lá] não usam bermudas, por exemplo”, ressalta.

Foram essas roupas mais largas que ela usou na Jordânia enquanto estudava. Ela conta que sofreu assédio em diversas situações mas, ao conversar com suas professoras de árabe, se deu conta que não tinha a ver com a roupa. As professoras usavam roupas que cobriam o corpo todo “e elas falavam ‘não adianta, eu recebo cantada na rua e me visto assim'”, lembra.

Assédio

De fato, segundo Priscila, o assédio era um problema constante durante a sua estadia na Jordânia. Era algo que acontecia “nas ruas, em vários contextos, e é desde o nível do Brasil até algo muito maior e mais extremo, especialmente se você não se parece com eles”, recorda.

Na experiência dela, eram as mulheres com cara de estrangeira que sofriam mais assédio. “Tive uma amiga [loira] que chegou a pintar o cabelo de um tom escuro para ver se chamava menos atenção”, lembra. Essas situações aconteciam mesmo em transporte público, em táxis ou estabelecimentos comerciais.

Era algo de que as professoras estavam conscientes, e davam orientações adequadas para contornar. Por exemplo: elas ensinavam frases como “vou chamar a polícia”, e em caso de problemas orientavam as mulheres a recorrer sempre a casais ou outras mulheres.

Um passo à frente

Priscila também notou que havia um estereótipo negativo associado a mulheres brasileiras. E que por isso, ao falar que era brasileira, ela corria mais risco de passar por situações desse tipo. Como proteção, passou a dizer a taxistas e outros homens que perguntavam que ela era do Suriname. “Ninguém tem um estereótipo do Suriname”, comenta.

Outra situação que ela percebeu era que a postura simpatica e sorrdente que muitos brasileiros mantêm constantemente é diferente do que eles estão acostumados. E às vezes Priscila percebia que os homens interpretavam mal essa atitude simpática. Por isso, passou a tentar ter uma postura menos aberta e sorridente.

A questão do assédio, no entanto, varia bastante entre os países, e o conselho de Priscila é que cada pessoa se informe tanto quanto possível sobre seu destino antes de ir. Cláudia, por exemplo, conta que viveu no Omã uma situação completamente diferente.

“Me sinto completamente segura de andar na rua. Não tem assédio, eles são bem respeitosos”, diz. Ela acredita que isso pode ter a ver com a religião, ou com o fato de o Omã receber muitas pessoas de diversos países. “Tem muito turismo aqui, então se os omanis forem num hotel, eles vão ver gente de bikini”, argumenta.

Hospitalidade

Priscila frisa, no entanto, que a sua experiência estudando árabe na Jordânia foi maravilhosa apesar dos percalços. Em particular, ela destaca a experiência excelente que teve na sala de aula. “As professoras eram extremamente qualificadas e muito abertas para te ajudar depois da aula”, lembra.

“Eu sentia uma abertura tremenda. Aconteceu de uma das professoras me chamarem para ir no casamento de um primo delas, para conhecer como é um casamento árabe. E tinha coisas como ‘vamos fazer um banquete lá em casa para vocês conhecerem o vocabulário de tempero e culinária’. Eu fiquei muito feliz com essa hospitalidade”, conta.

Claudia também sentiu positivamente esse aspecto receptivo da cultura no Omã. “Meu choque cultural na Alemanha foi muito maior do que aqui”, comenta. Ela viveu na Alemanha também, e conta que era difícil fazer amizade por lá.

As duas consideraram suas experiências extremamente enriquecedoras, e que eventuais problemas que tiveram valeram a pena. Mas Priscila reconhece que mulheres que pensam em estudar por lá “precisam avaliar como elas reagem” a situações de assédio no Brasil e “entender como seria viver com isso”.

Em todo caso, as recomendações dela são informar-se sobre o local onde deseja estudar, ter uma rede de apoio à qual recorrer em caso de necessidade e ter pessoas no local que possam ajudar na sua recepção e acomodação. Ela deixa claro também que essa é a sua perspectiva, de mulher cisgênera e heterossexual. Mulheres trans ou pessoas homoafetivas sem passabilidade hétero podem se deparar com outras questões.

Mesmo nesses casos, no entanto, ela acredita que há muito a se ganhar em uma experiência no Oriente Médio. Pois assim como no Brasil, lá também há bares com pessoas mais novas, roupas mais ocidentalizadas e até bares LGBTQ.

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