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Estudante brasileiro premiado na Tsinghua fala sobre vida na China

Em 2023, quando o mineiro Vitor Fernandes de Almeida estava no final do seu doutorado no Centro de Desenvolvimento e Tecnologia Nuclear (CDTN), fez uma apresentação na International Nuclear Atlantic Conference (INAC), um dos principais eventos do setor nuclear brasileiro. O trabalho chamou a atenção de diversas organizações que estavam presentes, entre elas a CNNC (China National Nuclear Corporation), estatal chinesa que é uma das maiores corporações nucleares do mundo.

Foi assim, sem nunca ter considerado essa possibilidade, que Vitor foi estudar na China com uma bolsa de estudos completa. De volta ao Brasil, ele reflete sobre seus dois anos no gigante asiático e compartilha alguns de seus inúmeros aprendizados.

O começo

A CNNC abordou Vitor para falar sobre a necessidade de criar pontes entre a China e o Brasil, já que os dois países estreitam relações em setores estratégicos, como energia e tecnologia. “Eles me apresentaram um mestrado profissional na Tsinghua University que tem uma abordagem totalmente voltada para empresas, projetos e gestão no setor nuclear, incluindo estágios nas três maiores estatais nucleares chinesas”, conta.

Por se tratar de um curso profissionalizante, o fato de Vitor estar no doutorado não era um empecilho. Assim, com uma indicação oficial da própria CNNC, ele passou pelo processo seletivo da Tsinghua e embarcou para a China em agosto de 2024.

Vida na universidade

Vitor destaca a exigência do curso: “É um curso de excelência, um dos programas de referência internacional na área. É uma rotina intensa, com aulas durante o dia todo, além dos estágios obrigatórios”, diz. Para seu projeto, ele ele pesquisou uma nova tecnologia voltada à segurança nuclear, com potencial de aplicação em reatores, em uma parceria direta com a CNNC.

Além do curso, ele considera que o próprio ambiente universitário da Tsinghua é muito estimulante. A universidade tem uma megaestrutura com mais de 19 cantinas que, segundo Vitor, oferecem opções tão saborosas quanto as de bons restaurantes, com comida excelente e diversificada, além de agências bancárias, supermercados, lojas de conveniência, shopping, farmácias, hospital, academias e até redes como McDonald’s e Pizza Hut. “O ecossistema interno é tão autossuficiente que o maior risco para um estudante é passar o ano inteiro sem sair do campus, pois tudo de que se precisa está disponível ali”, afirma.

As facilidades disponíveis no campus e o ambiente multicultural e tecnológico tornam possível realizar grande parte da rotina universitária mesmo com conhecimento limitado de mandarim. Ainda assim, Vitor tinha aulas oferecidas pela universidade, e conseguiu aprender o suficiente para se comunicar de forma básica no dia a dia. “De qualquer maneira, os chineses são incrivelmente solícitos para ajudar, desfazendo a imagem de frieza que muitas vezes temos no Ocidente. A adaptação foi muito mais rápida e fluida do que eu esperava”, lembra.

Educação na China

Na China, como explica Vitor, há um respeito muito grande pela educação e por quem se dedica a ela. “No Brasil, é comum perguntarem a um mestrando ou doutorando se ele ‘apenas estuda’. Na China, essa pergunta jamais seria feita”, relata. Além disso, ele conta que, por estar no final do doutorado no Brasil, os professores ficavam impressionados: “Eles  me tratavam de igual para igual, com um nível de respeito acadêmico que me chamou bastante atenção”.

Em relação à infraestrutura e aos insumos de pesquisa, ele afirma que a diferença é brutal. “No Brasil, o pesquisador precisa ser extremamente criativo e contornar a escassez de recursos e a burocracia”. Na experiência de Vitor na Tsinghua, a disponibilidade de recursos raramente representava um obstáculo. Ele relata que, se uma pesquisa aprovada exige determinado reagente ou equipamento específico, o pedido é feito online e chega ao laboratório em dois ou três dias. “A abundância e a agilidade no acesso a insumos ajudam a explicar por que o avanço tecnológico chinês ocorre em um ritmo tão acelerado”, pondera.

Premiações e distinções

Apesar da exigência altíssima, Vitor teve um desempenho que surpreendeu até ele próprio. “Conquistei quatro importantes premiações e distinções durante minha trajetória na Tsinghua University, incluindo reconhecimentosacadêmicos e internacionais”, conta. São elas:

  1. Tsinghua Comprehensive Scholarship: premiação concedida aos cinco melhores estudantes internacionais da universidade, com base em excelência acadêmica e desempenho global.
  2. Belt and Road Ambassador Scholarship: distinção concedida a estudantes que demonstram alto potencial de liderança em ambientes internacionais.
  3. Best Academic Performance: distinção de melhor desempenho acadêmico do curso de Engenharia Nuclear.
  4. All-Round Excellent Student, First-Class Overall Excellence: reconhecimento de excelência global concedido pelo desempenho acadêmico e geral do estudante.

Com esse conjunto de conquistas, Vitor se tornou o primeiro brasileiro e o primeiro estudante de todo o continente americano do programa a reunir essas premiações e distinções.

Além das distinções, também foi escolhido como orador da turma na cerimônia de formatura, uma função para a qual o programa seleciona um estudante de destaque, considerando seu desempenho acadêmico e sua trajetória ao longo do curso.

Retorno e conselhos

Vitor voltou ao Brasil recentemente. Vive em Belo Horizonte e está trabalhando em um projeto em parceria com a UFRJ voltado para estudos de viabilidade de reatores modulares embarcados (SMRs).

Para quem pensa em estudar na China, ele recomenda uma preparação antecipada: “Verificar previamente a disponibilidade das ferramentas e serviços digitais que utiliza no Brasil, preparar alternativas antes da viagem e baixar com antecedência os aplicativos locais de pagamento, mapas e tradução. Na prática, a grande maioria dos aplicativos usados no dia a dia na China é diferente dos que utilizamos no Brasil, e muitos dos nossos aplicativos e serviços habituais não funcionam por lá”.

Apesar de algumas dificuldades como essa, Vitor voltou com uma impressão fortemente positiva do país e quer incentivar outros estudantes: “A China está investindo fortemente na internacionalização de suas universidades de ponta, buscando atrair talentos internacionais e fortalecer parcerias acadêmicas com o Brasil. É um momento bastante favorável para estudantes brasileiros se candidatarem a bolsas de estudo em instituições chinesas de classe mundial”, orienta.

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