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Brasileiros selecionados pelo Chevening dão dicas para conseguir bolsas para o programa

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Brasileiros selecionados pelo Chevening dão dicas para conseguir bolsas para o programa

O Chevening, programa que oferece bolsas integrais de pós-graduação no Reino Unido, está com inscrições abertas até 3 de novembro. Trata-se de um programa muito interessante para quem pensa em fazer pós no exterior, já que ele contempla muitos candidatos a cada ano. E se você já se perguntou como conseguir uma bolsa do Chevening, está no lugar certo.

 

Conversamos com três brasileiros aprovados para fazer pós-graduação no Reino Unido para saber quais são as principais dicas para ser aprovado no processo. De perfis distintos, e aprovados para estudar em áreas diferentes, eles no entanto deram dicas bem parecidas. Confira!

Como conseguir uma bolsa do Chevening

Sim, a bolsa é para você

Por tratar-se de um programa de bolsas prestigioso, o Chevening pode dar a impressão de ser excludente ou inacessível. Os brasileiros com quem conversamos, no entanto, dizem que não é o caso.”Eu achava que dependia de mais coisas do que depende de fato”, comenta Claudia Alves, roteirista e diretora da Fluxa Filmes, que fará o mestrado em Media Practice for Development and Social Change na Univesidade de Sussex.

Ainda que o programa seja concorrido, candidatos que não tenham um histórico acadêmico perfeito ou que não venham de universidades de ponta ainda têm boas chances de conseguirem a bolsa. “Todo mundo pode se candidatar, e você deveria”, avalia Cassio Oliveira, gerente de engenharia natural da Bahia, que vai fazer mestrado em Transport & City Planning no University College London.

Andrew Bonfim, potiguar aprovado para estudar Psychological Research na Universidade de Edimburgo, conta que teve um momento de hesitação. “Logo que eu conheci o Chevening, eu pensei que não era para mim, achei que era só para alunos ‘perfeitos’. Mas quando eu conheci o processo, vi que sim, existe uma exigência acadêmica, mas que ele tá muito mais preocupado em quem você é enquanto, líder, enquanto pessoa preocupada em desenvolver conhecimento, do que com onde você passou e qual nota você tirou”, diz.

O programa pretende ser mais inclusivo

De acordo com a própria organização que oferece as bolsas, chegar a todos os brasileiros — especialmente grupos tradicionalmente sub-representados em processos desse tipo — é um de seus objetivos para o futuro. Eles dizem estar “trabalhando com alunos e ex-alunos para formar um ‘Grupo de Diversidade do Chevening Brasil’, cujo objetivo é fortalecer a diversidade dos candidatos que se candidatam à bolsa”.

Embora ainda não tenham concluído quais serão as metas e objetivos do grupo, um dos passos em que pretendem focar é na mentoria: permitir que ex-alunos negros ofereçam mentoria a candidatos negros, por exemplo. A organização também afirma estar fortalecendo sua divulgação junto aos estados do Norte do Brasil e em organizações como a Rede de Mulheres LBTQ+ e o Fundo Baobá.

Ainda há um longo caminho nesse sentido. Claudia, uma mulher negra do Rio de Janeiro, diz que de sua turma de 46 bolsistas, apenas 3 eram pessoas negras (e as três eram mulheres). O Chevening diz que não consegue confirmar esse número pois não pergunta a etnia das pessoas que se cadastram para a bolsa. “Por ser algo também relacionado a auto determinação, não é um mapeamento que existe de forma concreta”, dizem.

Informe-se tanto quanto possível

O Chevening disponibiliza uma série de recursos para orientar candidatos quanto à melhor maneira de agir em diversos momentos da candidatura. Conhecer esses recursos é importante para evitar “erros bobos” que podem acabar invalidando toda a sua candidatura, na avaliação de Cassio. “Tem muita gente que acaba sendo eliminada só de não saber o que é para entregar e como tem que entregar”, afirma.

Por isso, ele recomenda ler tudo que possível no site da bolsa. No YouTube oficial do programa também é possível ver vídeos que falam sobre diversas partes do processo. Ele também recomenda acompanhar as redes sociais do programa de bolsas para se manter atualizado com o andamento dos processos e ver mais dicas. Ler a seção de perguntas frequentes do site também pode ajudar a se informar sobre como conseguir uma bolsa do Chevening.

Tenha o tempo ao seu lado

O processo de candidatura para o Chevening é longo. E além disso, ele não é o único: além de se candidatar para a bolsa, você também precisará se candidatar para o curso que deseja fazer no Reino Unido. É fácil entender, portanto, que gerenciar o seu tempo durante a candidatura é extremamente importante para evitar problemas.

Andrew recomenda começar os essays com o máximo possível de antecedência, para dar tempo de refiná-los até o momento de enviar. “Tira uma hora, meia hora, 10 minutos que seja do seu dia para dar uma atenção a eles”, diz. Assim, o candidato terá o melhor texto possível dentro do prazo para se candidatar.

Atenção total nas essays

Para se candidatar para o Chevening, é necessário enviar quatro essays de candidatura, cada um com até 500 palavras, todos em inglês. Por um lado, é muita coisa para escrever. Mas por outro, esses essays são, na visão de Andrew, uma parte essencial do processo. “O Chevening quer candidatos e bolsistas que saibam exatamente o que eles querem fazer no futuro”, comenta, e avalia que as redações são a principal maneira de mostrar que você tem esse perfil.

A seguir, veja um pouco sobre cada um dos quatro essays:

1 – Leadership and influence: nessa redação, o candidato deve deixar claro que ele é um líder e influenciador na sua área de atuação, e que pretende usar a oportunidade que o Chevening proporciona para ampliar o alcance dessas características. Segundo Cassio, nessa redação, pouco vale tentar definir o que é “liderança” ou falar sobre ela de modo abstrato. O essencial é contar sua experiências e mostrar como você agiu de maneira assertiva para levar determinadas situações às suas superações.

2 – Networking: a ideia do essay sobre networking não é mostrar que você tem uma grande rede de contatos, ou falar sobre as maneiras que você usa para expandir sua rede. O objetivo aqui é mostrar como você conseguiu unir e orquestrar pessoas com talentos diferentes para trabalhar em pro de um objetivo. Segundo Cassio, é importante não confundir “networkin” e “liderança”, por mais que os dois teham pontos em comum, e usar nessa redação exemplos diferentes dos que você usa na primeira.

3 – Studying in the UK: neste texto, o candidato precisa explicar por que quer estudar no Reino Unido, de maneira geral, e nos cursos que escolheu, em específico. Em todos os essays, ser específico é importante, mas neste é essencial. Saber bastante sobre a relevância do país, da escola e do curso escolhidos na sua área é crucial para se sair bem.”Dizer que você quer estudar em Oxford porque ela é a melhor universidade do mundo não é uma boa resposta”, comenta Cassio.

Para Claudia, que vai estudar Media Practices for Development and Social Change na Universidade de Sussex, foi um dos pontos em que ela sentiu mais necessidade de prestar atenção. “Nessa área, o pessoal sempre pensa nos Estados Unidos”, comenta. Mas ela lembrou da Michaela Coel, escritora e protagonista da série Chewing Gum, que ela adora (e que foi feita no Reino Unido) e falou sobre ela.

4 – Career plans: aqui, a ideia é que o candidato deixe claro o que pretende fazer com tudo que adquirir ao longo de seu ano de estudos no Reino Unido. Aqui, Cassio dá a ideia de estruturar seus planos futuros em três partes: para curto, médio e longo prazo. Isso ajuda a mostrar que o candidato tem um caminho claro delineado para a sua carreira.

“Essa é a única das quatro essays em que você foca no futuro”, comenta. Ele recomenda também que os candidatos definam objetivos claros, mostrem que sabem o caminho para atingí-los e descrevam com detalhes esse caminho. “E você tem que fazer tudo isso, de preferência, identificando maneiras de linkar sua trajetória com o Reino Unido”, comenta.

Considere usar a metodologia STAR

A metodologia STAR pode ajudar quem tem dificuldade em redigir seus essays. A sigla significa “Situação, Tarefa, Ação e Resultados”, e explicita as quatro etapas que as redações devem ter. Primeiro, descrever a situação em que o candidato se encontrava (situação). Em seguida, falar sobre como ele se posicionou diante do problema (tarefa) e o que ele fez para superá-lo (ação). Finalmente, indicar o que aconteceu graças às suas ações (resultados).

Andrew e Cassio contam que usaram a técnica em seus essays, com resultados positivos. Andrew ressalta que para as redações sobre liderança e networking, é preferível usar esse método para relatar em detalhes algumas experiências do que sair listando várias atitudes que você tomou sem se aprofundar em nenhuma delas. “Mais importante do que você listar vários exmeplos é você colocar um ou dois e descrever do início ao fim”, diz.

Estude para a entrevista com seus essays

De acordo com os brasileiros aprovados, a entrevista do Chevening gera ansiedade antes de começar, mas é surpreendentemente tranquila. Ela dura cerca de 45 minutos e, na memória de Claudia, “foram 44 minutos de entrevista com excelentes perguntas”.

Segundo Andrew, os entrevistadores conseguem “tirar o melhor de você como candidato”. As perguntas que eles fazem são basicamente sobre os mesmos temas da candidatura online: seus exemplos de liderança e networking, sua motivação para estudar no Reino Unido e seus planos de carreira para o futuro.

Cassio, que achou a entrevista a parte mais difícil do processo, recomenda que os candidatos revisitem suas essays de candidatura para ter fresco na memória o que escreveram por lá. O objetivo é ter clareza quanto às suas respostas em cada ponto, de maneira a não gerar incertezas ou dúvidas de que você realmente sabe o que quer. Ele ressalta que a metodologia STAR também pode ser útil na hora de responder às perguntas dos entrevistadores.

Outra dica que Claudia dá para a entrevista é pensar em contar sua própria história em diferentes “escalas”. “Pensa assim: como você contaria sua história para alguém que você encontrou no elevador? E como você contaria em um TED Talk?”, sugere.

Inglês na ponta da língua

A entrevista é toda em inglês, e exige que o candidato demonstre uma boa capacidade de se comunicar no idioma. Ou seja: é preciso estar em dia com o speaking! Isso, naturalmente, além das demais exigências de inglês que a bolsa coloca.

Nesse aspecto, o Chevening não é particularmente exigente. No entanto, ainda é necessário que os candidatos cumpram os requisitos de inglês dos cursos em que pretendem estudar com a bolsa. E o nível desses requisitos pode variar bastante conforme o curso — programas de humanas, ciências sociais ou comunicação social tendem a exigir pontuações mais elevadas.

Aqui, uma dica importante é fazer os exames de proficiência o quanto antes. Assim, caso você não tire a nota mínima exigida da primeira vez, ainda dá tempo de fazer de novo antes do fim das candidaturas.

Não fique sozinho

Além de aproveitar os recursos que a organização das bolsas oferece sobre como navegar o processo de candidatura e pesquisar dicaso sobre como conseguir uma bolsa do Chevening, Cassio também recomenda que os candidatos mantenham contato entre si. “O que me ajudou muito no processo foi estar em contato com outros candidatos”, comenta.

De acordo com ele, participar de grupos do WhatsApp e do Facebook com outros candidatos ajudou a ver quais eram os problemas que eles estavam enfrentando, “trocar experiências, receber feedback e esclarecer dúvidas”. Ele também diz que contou com mentoria de uma profissional para se preparar para a entrevista.

Claudia também contou com mentoria para se preparar, mas essa mentoria veio de uma amiga sua — a mesma responsável por apresentar o Chevening a ela. Essa mentoria foi providencial, pois ajudou-a a lembrar da atriz e escritora da série Chewing Gum, referência que ela citou na entrevista e “todo mundo conhecia”. Nesse sentido também, contar com a ajuda de outros pode fazer bastante diferença.

Você pode tentar de novo

Os três brasileiros que foram ouvidos para esse texto conheceram o Chevening em um ano, mas só foram aprovados para a bolsa no ano seguinte. A candidatura é, de fato, um processo longo e exigente, e se você não se sentir preparado para fazê-la dentro do prazo, não há problema em esperar pela próxima edição.

Foi o que Andrew fez. “Quando eu conheci em 2018, as inscrições estavam abertas. Mas eu não senti que tava pronto, ainda estava na especialização e precisava preparar minha candidatura melhor”. O ano que ele passou até se candidatar de fato foi “de muito autoconhecimento” e contribuiu para o sucesso dele no processo de 2019. “Diante da empolgação de querer passar é possível que a gente se apresse e não consiga elaborar uma candidatura de qualidade, o que pode ser bem frustrante”, considera.

E se você não for aprovado, você pode tentar de novo. Claudia foi até a fase final no processo seletivo de 2018, mas não foi aprovada. Usou a experiência adquirida para melhorar sua candidatura para o processo de 2019 no qual foi aprovada. “Eu sabia que eles gostavam da minha história. Eu já tava no caminho certo, a diferença para mim foi praticar”, conclui.

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