O Fellow Estudar Felipe Silvestri vive desde janeiro de 2023 na China. Formado em Economia pela Duke University e pela Duke Kunshan University, ele cursa agora o mestrado na Yenching Academy, da Peking University, em Pequim. A seguir, ele conta um pouco sobre seu interesse por idiomas, a experiência acadêmica e por que decidiu “dobrar a aposta” na China.
Aprendendo mandarim
Felipe tem uma relação com o aprendizado de idiomas desde pequeno. Aos cinco anos, ele se mudou de São Paulo para o México por causa do trabalho do pai, retornando ao Brasil cinco anos depois. Aprendeu inglês e espanhol com facilidade, e, percebendo a aptidão natural, aos 14 anos decidiu se desafiar: queria aprender um idioma mais difícil, com alfabeto diferente e que tivesse alguma utilidade. Ficou entre árabe, russo e mandarim, e escolheu o último.
Na hora de aplicar para universidades, ele tinha uma certeza: queria continuar se aperfeiçoando na língua. Se candidatou a faculdades americanas com bons programas de idiomas e a duas com campus na China. Acabou escolhendo a Duke Kunshan (DKU), perto de Xangai, fruto de uma colaboração entre a Duke University, nos EUA, e a Wuhan University, na China. “Pensei: por que vou para os Estados Unidos aprender mandarim, se posso ir para a China e aprender lá?”, lembra. Além disso, a oferta de uma bolsa generosa da instituição foi um fator atrativo.

Ele conta que, apesar de o programa ser todo em inglês, fez questão de fazer o curso de mandarim em todos os semestres. No último, já tinha a fluência necessária para cursar uma disciplina sobre a sociedade chinesa contemporânea, com aulas em mandarim e com debates sobre natalidade, direitos das mulheres e urbanização. Ele também fez pesquisa em finanças sustentáveis, ciência política e história, e terminou a graduação com uma impressionante média de 3,7 (em uma escala de 4).
A vida na China
Felipe se adaptou com relativa facilidade à cultura chinesa, mas lembra de alguns estranhamentos no começo. Os horários das refeições, por exemplo, são rígidos: “No refeitório, o almoço só era servido até as 13h. O jantar, até as 19h30. E todo mundo come muito rápido, em 10 ou 15 minutos, hábito que acabei adotando também”, conta.
Além disso, ele destaca a disciplina dos colegas chineses, que passavam longas horas na biblioteca. “Meu colega de quarto revisava os mesmos slides todos os dias, durante semanas. Não era a forma mais eficaz de estudar, mas a constância dele me impressionou”, diz.
Fora das salas de aula, Felipe se dedicou a aproveitar todas as oportunidades oferecidas. foi presidente do grupo de estudantes latinos, para o qual organizou rodas de conversa em português e em espanhol, além de ter criado uma festa dentro do campus. Ele também foi copresidente do clube de cinema, uma de suas paixões, integrou o comitê de atletas e jogou no time de futebol da universidade. 
Em Xangai, depois de contactar por iniciativa própria os responsáveis, estagiou na MBRF, companhia brasileira de alimentos e uma das maiores do mundo. “A empresa estava voltada para o mercado chinês, e ter um brasileiro que falava mandariam fluente era muito vantajoso para eles”, conta. Ele trabalhava em mandarim, negociando com compradores de carne, e passou um mês em uma fábrica da empresa no interior do país, onde há poucos estrangeiros e a maioria das pessoas não fala inglês.
Um risco calculado
Felipe já sabia que queria continuar na China quando se graduou, em maio de 2026. Como um de seus objetivos profissionais é trabalhar na relação entre Brasil, América Latina e China, ele percebeu que ainda precisava ficar mais tempo no país para criar mais conexões e aprofundar conhecimentos. “Eu não queria que a China virasse uma nota de rodapé no meu currículo, como pode acontecer com muitas pessoas que vêm estudar aqui. Não quero perder o idioma e a conexão com o país”, explica.
Para ele, a escolha nunca foi simples. “Eu assumi um grande risco ao vir para cá. O caminho mais certeiro seria fazer uma universidade tradicional e seguir minha carreira”, reconhece. O custo também é pessoal: com a distância e as 11 horas de diferença de fuso, ele não consegue ver a família tanto quanto gostaria. Justamente por ter bancado esse risco, Felipe quer aproveitar ao máximo sua experiência na China, utilizando essa oportunidade para ajudá-lo a chegar mais longe.
Foi por isso que ele logo se candidatou à Yenching Academy, programa altamente competitivo na Peking University. Agora, morando em Pequim, ele estuda com uma bolsa de estudos completa, além de auxílio mensal. “Já investi muito na China e colhi frutos, mas, para valer a pena, eu tinha que dobrar a aposta. O mestrado foi isso”, diz.
Felipe afirma que o domínio do mandarim foi e ainda é fundamental para ele. “A experiência sabendo a língua é outra. Sem o idioma, é fácil ficar numa bolha de estrangeiros, especialmente dentro da universidade”. Ele destaca várias oportunidades que só conseguiu por causa da fluência, além das conexões com locais. Por isso, para quem pensa em ir para a China, ele recomenda o estudo do mandarim, mesmo que o curso seja em inglês.
Para o futuro, o estudante planeja continuar no país. Além do interesse pessoal e profissional, ele destaca a qualidade de vida: “É um país muito seguro, muito conveniente, com bom custo de vida”, conclui.