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Missão China: o que o gigante asiático tem a oferecer aos estudantes brasileiros?

Por Lucas Mendes, CEO da Fundação Estudar

Voltei recentemente de uma missão à China organizada pela Fundação Bering, em parceria com o Instituto Trajetórias, da qual a Fundação Estudar participou. Fomos para o outro lado do mundo para entender melhor o que a China pode oferecer aos estudantes brasileiros, mas fui surpreendido pelo país logo na chegada, antes mesmo de entrar nas universidades. 

O processo de imigração, que pode ser caótico em outros lugares, foi extremamente ágil e tecnológico. Uma máquina falou comigo em português, fez o reconhecimento facial e eu já estava liberado. Saindo do aeroporto, peguei um trem de alta velocidade e em 20 minutos estava no coração empresarial de uma metrópole. Eu carregava, como boa parte de nós, uma ideia errada de que China é um lugar distante e fechado, mas já quebrei esse estereótipo de cara.

As universidades chinesas foram generosas com as suas agendas: conversamos longamente com universidades em Pequim, Xangai, Shenzhen e Hong Kong. Depois de conhecer essas instituições, posso dizer que o que mais me impressionou foi a forma como tradição e tecnologia se integram. Um dos campi de Tsinghua, uma das melhores universidades da China — e do mundo, ocupa o que foi um palácio imperial com jardins, bambu e arquitetura da última dinastia. Você atravessa esse cenário e, de repente, está num centro de pesquisa de ponta, com investimentos bilionários e uma infraestrutura incrível. A China tem orgulho do seu passado milenar, mas, ao mesmo tempo, tem uma visão muito clara, que vem desde Deng Xiaoping, de que ciência e tecnologia são o caminho para o desenvolvimento do país.

Não por acaso, os rankings internacionais de melhores universidades mostram as instituições chinesas subindo posições ano após ano. No ranking QS 2027, a University of Hong Kong aparece em 11º lugar, a melhor colocação histórica de uma universidade chinesa. A Peking University vem em 13º, Tsinghua em 14º e a Chinese University of Hong Kong em 18º. Não há dúvida de que as universidades chinesas competem de igual para igual com as melhores instituições do mundo. 

Queria registrar também o que aprendi sobre educação por lá, porque é difícil falar de universidades chinesas sem falar do Gaokao, o exame nacional que decide o futuro acadêmico de cada estudante e que mobiliza famílias inteiras desde a infância. A dedicação aos estudos não é comparável à nossa. É regime integral, dormitório com horário rígido, uma rotina que lembra escolas preparatórias de elite. Em contrapartida, os recursos são praticamente ilimitados. Conversei com brasileiros que fazem doutorado em Hong Kong recebendo bolsas próximas de R$ 40 mil, mais do que ganhariam em boa parte da Europa ou dos Estados Unidos. Existem três níveis de bolsa por lá: a nacional, oferecida pelo governo chinês, a da província ou cidade, e a da própria universidade. Some a isso o enorme incentivo a quem quer empreender, com acesso a sócios e a capital inicial oferecidos pela própria instituição, e fica claro que ali universidade, governo e setor privado não são mundos separados, são uma engrenagem só.

A China é hoje um dos maiores parceiros econômicos do Brasil, e essa relação só tende a crescer, tanto nas empresas brasileiras que vendem para lá quanto nas chinesas que já estão entre nós. Isso significa oportunidade real de carreira para quem estiver disposto a ir para lá. E, no entanto, os números são ínfimos. Existem cerca de 7 mil brasileiros vivendo na China, contra quase 300 mil no Japão, por exemplo. Poucas dezenas recebem bolsa do governo chinês por ano. Do outro lado, encontramos um respeito enorme pelo Brasil e um desejo genuíno de atrair mais estudantes daqui. A maior barreira ainda é o idioma, mas os cursos em inglês se multiplicam, com professores chineses que voltam de doutorados na Europa e nos Estados Unidos.

É claro que existem desafios para quem vai estudar na China: integração cultural, hábitos muito diferentes, fuso horário e normas e restrições às quais não estamos habituados. Mas também não faltam áreas de oportunidade: das exatas e da tecnologia, onde o investimento parece infinito, às relações internacionais, ao meio ambiente, ao planejamento urbano e às políticas públicas de combate à pobreza, tema em que a China acumulou uma experiência recente que raramente nos chega como referência

Um outro ponto que me marcou, foi perceber que o medo de fuga de cérebros, que às vezes gera discussões mais acaloradas aqui no Brasil, nunca fez parte da lógica chinesa. A aposta de lá sempre foi mandar gente para fora em volume, confiando que, um dia voltariam. Aqui na Fundação Estudar, nossos números mostram exatamente isso: entre 70% e 90% dos brasileiros que estudam fora retornam ao país. E as que não estão aqui, buscam meios de gerar impacto positivo no país. O caminho, como mostra a China, não é temer que as pessoas saiam. É adotar uma lógica de abundância e mandar mais gente, sabendo que o Brasil, para quem já viveu fora, continua sendo um lugar ao qual se quer voltar.

Este texto é a abertura de uma série que vamos fazer no Estudar Fora. Nos próximos meses, vamos apresentar histórias de brasileiros que apostaram no que antes era improvável e foram estudar na China. Com esses relatos, queremos mostrar o que significa, atualmente, encarar o Oriente em toda a sua grandiosidade. 



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