Por Mariah Bittencourt
“Sonhos nunca serão impossíveis, desde que você nunca deixe de sonhá-los.” Minha mãe repetia essa frase sempre que eu achava que meus sonhos eram apenas imaginação.
Cresci em uma cidade de 80 mil habitantes, onde fazer faculdade na cidade vizinha já significava “morar fora” e sonhar grande era visto como imaturidade.
Meu pai costumava cantar “Ovelha Negra”, da Rita Lee, e eu me identificava profundamente com a música: sentia-me diferente, alguém com sonhos grandes demais para as fronteiras da minha cidade natal.
Eu queria conhecer o mundo e estudar fora do país, algo que ninguém ao meu redor sequer cogitava. Um dia, pesquisei na internet: “Como estudar fora?”. A primeira resposta que apareceu foi “extracurriculares”. Então vieram listas intermináveis de atividades que pareciam pertencer a outra realidade: summer programs, MUN, projetos de pesquisa, prêmios, clubes estudantis, voluntariado… As pessoas nos vídeos falavam dessas oportunidades como se fossem comuns, mas nenhuma delas existia na minha cidade.
Fiquei extremamente decepcionada. Sentia como se estivesse 8.193 quilômetros atrás da linha de partida, que é o application process. Enquanto alguns estudantes já corriam com mapas, mentores e oportunidades, eu ainda tentava descobrir por onde começar.
Foi então que percebi que, se as oportunidades não existiam ao meu redor, eu teria que criá-las, do zero. Eu não podia esperar que minha cidade se transformasse na realidade que eu precisava, eu precisava me transformar na iniciativa que faltava.
O primeiro passo foi colocar meus sonhos no papel. Escrevi ideias de projetos, pesquisei centros sociais da minha cidade e liguei para cada um deles em busca de vagas de voluntariado. Reformulei cada ideia respondendo perguntas: Como, Onde, Quando, Por quê e Para quem, até que os sonhos começassem a ganhar forma.
O segundo passo foi aprender a pedir ajuda. Bati na porta de empresas e escolas, liguei para amigos de amigos em busca de orientação e apoio. Nesse processo, aprendi que, quando um sonho é grande o suficiente, a vergonha precisa ter vergonha de existir.
O terceiro passo foi aprender a ouvir “não”. Muitos deles! Quando você tenta criar algo que ninguém ao seu redor jamais construiu, ou sequer imaginou, as pessoas tendem a desacreditar. Algumas por insegurança, outras por medo do desconhecido. Mas percebi que ouvir respostas negativas não era um sinal para desistir; era parte inevitável de construir oportunidades do zero.
E o quarto passo foi acreditar. Porque começar algo sem referências, sem recursos e sem garantias exige mais do que planejamento, coragem. Quando não havia ninguém para acreditar nas minhas ideias, eu precisei aprender a ser a primeira pessoa a confiar nelas.
Com isso construí vários projetos do zero. Um deles foi minha trajetória com Simulações da ONU. Fui a primeira pessoa da minha cidade a participar de conferências em Harvard e Yale, mas como alguém chega até lá vindo de um lugar onde nem existia uma Simulação da ONU?
Comecei participando de conferências online e passei quatro meses dedicando todos os meus fins de semana às simulações. Cada debate era uma tentativa de diminuir a distância entre a minha realidade e os meus sonhos. Então, quando surgiu a oportunidade de participar presencialmente dessas conferências internacionais, apareceu mais uma barreira, eu precisava de 30 mil reais para custear a viagem.
Mais uma vez, comecei do zero.
Bati à porta de empresas, apresentei meu projeto, expliquei meus objetivos e ouvi muitos “nãos”. Até que, inesperadamente, veio um “sim”. Duas empresas industriais decidiram acreditar em uma estudante de uma cidade pequena com sonhos improváveis e financiaram toda a minha viagem.
Naquele momento, percebi que criar oportunidades do zero não significa fazer tudo sozinha. Significa acreditar tanto em um sonho a ponto de convencer outras pessoas a acreditarem nele também.
Então, falo para você com toda certeza, no final vale MUITO todo o esforço, pois o sentimento de ver um sonho que sua criança de 7 anos sonhava todos os dias antes de dormir virar a sua realidade é simplesmente mágico!
Mariah, do interior de SP, é voluntária em um centro de educação especial, experiência que moldou sua vida e a levou a desenvolver um projeto científico na área. Sendo a primeira da sua comunidade a participar de MUN em Harvard e Yale, criou o projeto “Portas Abertas” para ampliar o acesso à educação internacional. Ela é vegana desde os onze e apaixonada por animais.
A coluna acima foi escrita por Mariah Bittencourt, participante do Prep Program, preparatório da Fundação Estudar com foco em jovens que desejam cursar a graduação no exterior. Totalmente gratuito, o programa oferece orientação especializada sobre o processo de candidatura em universidades de fora do país. Saiba mais e faça sua inscrição aqui.