O Fellow Estudar Eduardo Vasconcelos acaba de retornar ao Brasil após um ano na China como mestrando na Universidade Tsinghua, em Pequim. Ele estudou Global Affairs como bolsista do Schwarzman Scholars, um dos programas de mestrado mais concorridos do mundo. A seguir, ele conta como foi o processo de adaptação à China e explica por que considera importante que mais brasileiros estudem por lá.
Estudar na China
Para Eduardo, estudar na China foi antes de tudo uma decisão estratégica. “Para ser um profissional que consiga atender as demandas necessárias para o Brasil se desenvolver e ser um líder no xadrez global, é imprescindível entender como a China funciona”, diz. Ele afirma que é fundamental entender como o Brasil deve se posicionar perante o país, além da disputa entre China e Estados Unidos.
O segundo motivo é a curva de aprendizado. “A China é uma sociedade milenar que somente nos últimos 200 anos da história da humanidade não esteve como grande potência e agora está retomando seu protagonismo“, explica, o que faz do país um terreno fértil para quem busca sair da zona de conforto intelectual.
O terceiro motivo é que, apesar da enorme relevância do país no cenário mundial, no Brasil pouco sabemos sobre ele: “Somos completamente desinformados sobre a China. Não entendemos o país, não entendemos o governo, não entendemos a economia”, afirma, lembrando que poucos brasileiros sabem, por exemplo, que o país tem mais de 50 grupos étnicos.
Foi esse interesse que moldou sua tese de mestrado, uma análise dos investimentos chineses feitos no Brasil nos últimos 15 anos, reconhecida com o Tsinghua University Outstanding Master’s Thesis Award, a mais alta distinção concedida pela universidade a trabalhos de mestrado e atribuída, em sua turma, a somente 4% dos graduandos. O trabalho cruzou dados quantitativos com entrevistas a representantes de governo, sociedade civil e especialistas, e chegou a uma conclusão principal: os estados brasileiros que menos conseguem transformar o investimento chinês em desenvolvimento local são justamente os que não têm estratégia.
Sobreviver (e comer) na China
A adaptação ao dia a dia na China teve seus percalços. Segundo Eduardo, o primeiro passo para qualquer estrangeiro é a preparação digital: “Se você chegar na China e não tiver baixado aplicativos como o WeChat, o Alipay, o Meituan, por exemplo, você vai ter dificuldade até de sair do aeroporto”. A vida no país, ele explica, é quase inteiramente mediada por esses aplicativos: do transporte público, pago com QR code pelo celular, às entregas feitas por robôs, que chegam à porta em minutos.
Ele lembra de quando recebeu a avó e a mãe em sua formatura: “O ecossistema digital, uma vez integrado, é tão prático que eu conseguia planejar que um robô entregasse um café da manhã mais brasileiro na porta delas, no horário que eu quisesse”. Eduardo estima que leva de dois a três meses para alguém se sentir plenamente inserido, período em que é preciso contar com outros recursos, como capturas de tela e tradução por inteligência artificial para decifrar aplicativos que existem apenas em chinês, como o próprio Meituan, usado para entregas.
A alimentação também exige adaptação. “É difícil que a culinária chinesa esteja presente em todas as refeições do dia, porque pode ser bem diferente da nossa”, conta. Mesmo assim, a praticidade da integração digital ajuda nesses momentos. Ele brinca sobre um dos achados mais inusitados da temporada: um salgadinho industrializado feito de pé de galinha, vendido como se fosse uma espécie de Doritos.
O aprendizado da língua
Um dos aprendizados mais claros de Eduardo é que, ao contrário do que costuma acontecer nos Estados Unidos, onde o inglês se aprimora com muita facilidade, na China o idioma exige esforço ativo. “Eu fui com a mentalidade de que estudar a China seria mais importante do que aprender a língua. E cheguei à conclusão de que a disposição em aprender mandarim transforma sua experiência na China”, resume.
Mesmo um mandarim mais básico — pedir comida, perguntar preços, explicar de onde se é — é capaz de ajudar a se conectar com as pessoas. Eduardo afirma que aprender o idioma tem um efeito social: a disposição de tentar se comunicar na língua local costuma abrir portas que o uso constante de aplicativos de tradução pode fechar. Muitas pessoas, explica, ficam desconfortáveis diante do celular do interlocutor, o que limita a espontaneidade da interação.
Uma sala de aula mais silenciosa
Tendo estudado também em Harvard, Eduardo vê diferenças nítidas entre os dois ambientes acadêmicos. Na China, a sala de aula tradicional é muito menos participativa, já que os alunos raramente levantam a mão para debater ou questionar o professor. Já em Harvard, lembra, questões bem formuladas eram elogiadas abertamente pelos professores.
Isso exige do estudante brasileiro uma postura mais ativa: buscar os professores fora da sala, se engajar mais nas leituras e aprender a formular perguntas de um jeito que deixe o interlocutor confortável para responder. Em compensação, Eduardo destaca a grandiosidade do ambiente de inovação dos campi chineses em meio a projetos de pesquisa na fronteira da inteligência artificial.
Estudantes como embaixadores
Um dos pontos que mais marcou Eduardo foi perceber o quanto o Brasil é desconhecido na China, resultado também de uma internet fortemente restringida, que limita o acesso da população local a conteúdo ocidental. Para quem pretende estudar no país, ele deixa o recado: “Vocês vão ser embaixadores do Brasil, fazem parte de uma geração que vai moldar a forma como a China enxerga nosso país”, diz.
Para Eduardo, essa é também uma responsabilidade que vem acompanhada de uma lição sobre o próprio Brasil. Ao ver de perto a transformação de um país que, em cerca de quatro décadas, saiu de uma economia predominantemente rural para se tornar referência em infraestrutura e tecnologia, ele recupera uma dose de otimismo sobre o que o Brasil também pode construir. “Quando olhamos para a China, redescobrimos nosso potencial de criação enquanto sociedade. Isso é o quanto a gente consegue fazer em uma geração”, finaliza.