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O que você precisa saber para ter uma experiência de estudos em outro país

09.10.13

Sem fronteiras: Diferenças nos idiomas

Sem fronteiras: Diferenças nos idiomas

Heimwee, gezellig, gumusservi, saudade... cada língua tem expressões únicas. Quer saber mais? Leia a coluna de Lucas Hackradt

Por Lucas Hackradt, especialista em Aprendizagem Intercultural da AFS Intercultura Brasil

Esta semana quero falar de algo tão banal que muitas pessoas não dão a devida atenção e importância. Línguas. Elas são a base de qualquer sociedade – afinal, para se criar regras, leis, constituições como a nossa, que completa 25 anos, é preciso vocabulário, é preciso escrita, é preciso da língua. A língua é um dos pilares centrais da cultura, e está tão enraizada em todos nós que muitas vezes não percebemos como a usamos de formas muito específicas.

Recentemente, vi um post na internet sobre algumas palavras que não têm tradução (você pode ler também, em inglês, AQUI). Não precisamos nem ir muito longe nesse debate: todo falante do português sabe e adora falar por aí que nós temos a palavra mais linda do mundo e impossível de traduzir – saudade. De fato, saudade não tem tradução em língua nenhuma do mundo. Ou melhor, tem. Mas não com o sentido específico que só nós somos capazes de entender.

Em Holandês, por exemplo, você pode dizer “heimwee” para algo semelhante, que quer literalmente dizer “sentir falta de casa”. Mas sentir saudade é mais que sentir falta de casa. É mais que sentir falta, aliás. É sentir saudade. Em contrapartida, os holandeses também têm sua joia linguística intraduzível, a palavra “gezellig”, que nós poderíamos tentar descrever como agradável, mas que significa mais que isso. Engana-se, portanto, quem pensa que só o português tem palavras especiais.

20131009_AFS_SiteNo nosso mundo, há inúmeras palavras e conceitos que emergem de lugares e culturas concretas e que só fazem sentido dentro de determinadas fronteiras geográficas; essas palavras são as mais preciosas representações dos valores culturais de diferentes povos, grupos e sociedades. São a forma máxima de expressão de uma cultura, e são também a materialização (abstrata, é verdade) da própria cultura. Não é à toa que boa parte do campo de estudos da educação intercultural está enraizada nas faculdades de letras e linguística.

A língua, porém, é apenas uma das diversas manifestações da cultura. Há também a linguagem corporal (e será que à toa que é chamada de “linguagem” também?), rituais e símbolos inerentes a cada sociedade ou grupo diferente. O que é curioso na linguagem humana é que essas “palavras intraduzíveis” mostram que diferentes culturas fazem mais uso ou referência a determinados conceitos também diferentes, e por isso sentem a necessidade de criar vocabulário próprio. Não é que não haja tradução para alguma coisa: somos todos humanos, e nossa experiência e relação com a vida na Terra, independente de estarmos no Japão, no Quênia ou no Brasil, é mais ou menos semelhante. O que difere é que, enquanto, por exemplo, os turcos têm uma palavra para a luz do luar sobre as águas do mar (“Gumusservi”), nós precisamos justamente dizer “luz do luar sobre as águas do mar”. Algumas línguas nomeiam sentimentos, experiências, enquanto outras precisam descrevê-las.

É por isso que, sempre que me perguntam, digo que fazer intercâmbio ou morar em outro país independe da língua falada. Muita gente foca em países de língua inglesa, muita gente foca só nos Estados Unidos ou Inglaterra quando temos também África do Sul, Austrália, Irlanda, por exemplo. Tem gente que, inclusive, menospreza a riqueza cultural de se estudar mesmo em outras regiões lusófonas, como Portugal, alegando que “qual é a graça de ir morar em um país que também fala português?”. A graça, claro, é que, apesar da língua ser a mesma, a cultura é completamente diferente, e podemos aprender muita coisa com isso. Por isso, na hora de finalmente decidir onde ir estudar, escolha o lugar em que você acredita que vai aprender mais e a cultura que mais lhe interessar. E, depois disso tudo, lembre-se de escrever aqui para nós e ensinar-nos algumas outras palavras que você tiver aprendido sem tradução!

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Lucas Hackradt – Colunista sobre a aprendizagem em experiências de intercâmbio

190011_10150173190105605_7563302_n (2)Sou formado em Comunicação Social, mas trabalho na área de educação intercultural desde 2007, quando me tornei voluntário do AFS Intercultura Brasil. Trabalhei na Globo, GloboNews e na Editora Globo como repórter da Revista ÉPOCA, e desde março deste ano integro o quadro de funcionários do AFS no Brasil como Especialista em Aprendizagem Intercultural, ligado à área de Desenvolvimento Organizacional da ONG. Já passei por diversos treinamentos e capacitações na área de educação intercultural, gerenciamento de conflitos culturais e estudos de comunicação intercultural. Já morei em quatro países, o mais recente dos quais Moçambique, na África, aonde desenvolvi projetos de desenvolvimento social sempre atrelados à questão da Interculturalidade. Me guio por uma frase simples: no mundo, nada é pior, nada é melhor, tudo é simplesmente diferente. E ser diferente é legal!

180734_498806906331_909606_nA coluna do Lucas Hackradt é realizada em parceria com a AFS Intercultura Brasil, uma organização de educação intercultural que organiza intercâmbios em diversos países com a finalidade de incentivar o diálogo intercultural e formar cidadãos globais, promovendo a paz.

 

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